As diferenças em questão relacionam-se com a semântica associada à expressão da temporalidade verbal e com particularidades de uso que nem sempre se afiguram fáceis de sistematizar para um falante não nativo.
No entanto, e antes de mais, refira-se que os exemplos que a consulente apresenta alternam entre o verbo ser e estar associados a diferentes tempos verbais, o que torna o cotejo que faz enviesado.
Comecemos então pela questão do verbo. Qual a diferença entre usar o verbo ser ou estar nas frases (1) e (2)?
(1) «A comida está boa.» / «A comida estava boa.»
(2) «A comida é boa.» / «A comida era boa.»
Tanto o verbo ser como o verbo estar são usados para descrever uma situação associada a um estado, ou seja, uma propriedade ou qualidade. No entanto, distinguem-se do ponto de vista aspetual pela limitação do intervalo temporal que implicam. Assim, por um lado, as situações expressas pelo verbo ser, «denotam propriedades ou qualidades tidas como estáveis nos indivíduos, que perduram durante uma boa parte da sua vida ou mesmo durante toda a sua existência, e que, portanto, os caracterizam enquanto indivíduos particulares»1; por outro lado, as situações descritas pelo verbo estar associam-se semanticamente a predicados episódicos, que «denotam propriedades ou qualidades transitórias e contingentes dos indivíduos, geralmente suscetíveis de mudança, e que podem ser concebidas como episódios ou estados passageiros»1.
Deste modo, e de forma algo simplista, a frase (1) descreve uma situação episódica ou transitória, ao passo que a frase (2) refere uma situação duradoura ou permanente.
Outra questão é a opção entre os tempos do pretérito: qual a diferença entre o perfeito e o imperfeito do modo indicativo? O perfeito traduz, habitualmente, uma situação já concluída, terminada e, quando usado na frase, localiza a situação num momento anterior ao momento da enunciação. Assim diríamos em português:
(3) «O jantar foi bom.»
(4) «O fim de semana foi bom.»
Tanto o jantar como o fim de semana são situações que correspondem a acontecimento que se associam a uma dada temporalidade que implica princípio, meio e fim. São apresentadas, do ponto de vista aspetual, como concluídas, terminadas.
O imperfeito, por sua vez, descreve uma situação no seu decurso, sem que os seus limites iniciais ou finais estejam definidos, daí que seja possível uma frase como (5):
(5) «A comida estava boa.»
A frase (7) não é aceitável porque «a comida» não pode ser vista como um bloco temporal que tem início, duração e fim, o que justifica também o facto de não ser compatível com o verbo ser no pretérito perfeito (que traduz uma situação com temporalidade, vista como terminada):
(7) «A comida foi boa.»
Tal acontece porque o verbo ser expressa um predicado estável, o que, sem outro contexto, não é compatível com o imperfeito, que apresenta a situação como um estado habitual.
Em síntese, a questão do valor temporal associado aos tempos e modos verbais e aos próprios verbos é um assunto complexo que exige um contacto gradual dos falantes com a língua de forma a que estes usos possam ir sendo interiorizados porque são muitas as particularidades que envolvem.
Disponha sempre!
1. Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1305.