As primeiras duas frases apresentadas pelo consulente são conformes à norma. No entanto, relativamente à terceira construção, a opção normativa e, portanto, preferível é a combinação do presente do indicativo (em «é possível») com o presente do conjuntivo no verbo da subordinada, pelas razões que veremos adiante.
As frases em análise apresentam uma estrutura condicional, que veicula um valor contrafactual. Oração condicional contrafactual expressa uma condição irreal, ou seja, uma condição que descreve uma situação relativamente à qual se depreende que não teve lugar.
Nas orações condicionais de valor contrafactual, o verbo da oração subordinada encontra-se geralmente no pretérito mais-que-perfeito ou no pretérito perfeito do conjuntivo, como se observa nos exemplos (1) e (2), respetivamente:
(1) «Se o curso tivesse sido difícil, os alunos não teriam continuado os estudos.»
(2) «Se o curso fosse difícil, os alunos não continuariam os estudos.»
Não obstante, a construção apresentada pelo consulente tem ainda a particularidade de incluir a expressão «é possível que», que é usada quando o falante quer exprimir a sua crença na possibilidade de a situação descrita poder ocorrer. Nesta expressão, o adjetivo modal possível surge em posição predicativa, sendo frequentemente combinado com o verbo ser na 3.ª pessoa do presente do indicativo. No entanto, ao contrário do que poderia parecer, esta construção não é fixa, na medida em que o tempo e modo verbais a adotar denotam alguma maleabilidade, como se observa nas frases seguintes:
(3) «É possível que eles não gostem de estudar nesta escola.» (possibilidade atual ou futura)
(4) «Era possível que eles não gostassem de estudar nesta escola.» (possibilidade no passado)
(5) «Será possível que eles não gostem de estudar nesta escola.» (possibilidade futura)
(6) «Seria possível que eles não gostassem de estudar nesta escola.» (possibilidade eventual ou irreal)
(7) «Tudo muda, sendo possível que eles não gostem de estudar nesta escola.»
Em síntese, na oração principal podemos usar vários tempos do indicativo ou ainda o condicional ou o gerúndio, de forma a expressar as diferentes possibilidades indicadas entre parênteses; na oração subordinada usamos o modo conjuntivo porque a expressão «ser possível» introduz um valor de crença que se expressa por meio deste modo. Por fim refira-se ainda que o tempo do conjuntivo da forma verbal da oração subordinada sofre alterações em função do tempo do verbo ser na oração subordinante. Deste modo, as combinações mais frequentes costumam ser as seguintes:
(i) «É possível que» ou «Será possível que» + presente do conjuntivo (frases (3) e (5));
(ii) «Era possível que» ou «Seria possível que» + pretérito imperfeito do conjuntivo (frases (4) e (5))
Em conclusão, a terceira frase apresentada pelo consulente não aprece descrita como uso por defeito para expressar o valor contrafactual. Não obstante, é possível assinalar o seu uso em textos de autores portugueses, como se observa nos casos identificados no Corpus do Português, de Mark Davies:
(9) «pelo menos, é possível que minha mãe tivesse aquela canastrinha na mão... [...]» (Camilo Castelo Branco, Maria Moisés, 1876, ibidem)
(10) «Com o tempo, é possível que tudo viesse à normalidade [...]» (Alberto Lopes, A Última Estação, 1949, ibidem)
(11) «é possível que, se lhe tivesse sido dado um outro tratamento na relação que tem connosco, a nossa vontade de matar fosse uma imposição da natureza» (António Alçada Batista, Os Nós e os Laços, 1985, ibidem)
Por fim, se se pretender expressar um valor real, os tempos das formas verbais terão de sofrer alterações, como em (8):
(8) «Se o curso é muito difícil, é possível que vocês não queiram continuar.»1
Disponha sempre!
1. Substituímos o verbo gostar pelo verbo querer, por este ser mais natural em português.