Pretérito mais-que-perfeito simples e composto - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Pretérito mais-que-perfeito simples e composto

Sempre que leio narrativas, encontro verbos no tempo verbal pretérito mais-que-perfeito, mas fora isso é bem difícil eu encontrar o uso dele – tanto na fala quanto na escrita. Porém, analisando mais calmamente percebi que trocando o verbo no pretérito mais-que-perfeito para um Verbo auxiliar + verbo principal no particípio, o sentido da oração se torna o mesmo.

Vejam-se estes exemplos:

1 – «Quando o noivo apareceu, a noiva já chegara à igreja.» Caso eu troque o «já chegara» para «já tinha chegado», a frase tem o mesmo sentido: «Quando o noivo apareceu, a noiva já tinha chegado à igreja.»

2 – «Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue». Caso eu troque o «partira» e «fora» para «tinha partido» e «tinha sido entregue», a frase tem o mesmo sentido: «Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde tinha partido e aonde de novo tinha sido entregue». Por isso, gostaria de saber se será sempre correto, de acordo com a norma padrão, fazer essa troca que eu fiz e se um equivale a outro.

Obrigado.

Paulo Almeida Estudante São Paulo, Brasil 2K

    Quando se diz «trocar», está a referir-se ao uso do mesmo tempo verbal, o pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que tem duas variantes: o simples (chegarae o composto (tinha chegado). Assim, ambos são substituíveis um pelo outro, pois têm o mesmo sentido.

   No entanto, há subtilezas no seu uso: o simples é usado sobretudo na escrita literária, enquanto o composto é mais usado na oralidade. A formação do pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo é formado pelo pretérito imperfeito do indicativo do verbo auxiliar ter mais o particípio passado do verbo principal.

    Segundo Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, o pretérito mais-que-perfeito "denota uma ação anterior a outra já passada". Exemplo: "No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima..." (Machado de Assis).

     Este tempo verbal usa-se, pois, para dar conta de um momento passado anterior a um outro também já passado.

     Veja-se a sua frase:«Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue»: olhou (pretérito perfeito) traduz já o sentido do momento passado e partira (pretérito mais-que-perfeito) traduz um momento anterior a esse olhar. Foi há mais tempo que isso aconteceu.

Maria Eugénia Alves
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Gramática Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos)