Orações completivas e interrogativas parciais indiretas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Orações completivas e interrogativas parciais indiretas

De acordo com o Dicionário Terminológico (DT), as orações subordinadas substantivas podem ser completivas ou relativas (sem antecedente), tendo sido colocada de parte a designação de interrogativas indiretas para orações do tipo:

«(Perguntei-lhe) porque esperava por mim/quando chegaria a casa.»

Também é referido no DT que as completivas podem ser introduzidas pelas conjunções que/para/se e as relativas sem antecedente por pronomes relativos. Como as orações dadas atrás como exemplo não se enquadram em nenhuma destas tipologias, gostaria de saber como é que devemos, então, classificá-las.

Obrigada.

Patrícia Silveira Professora Porto, Portugal 10K

As interrogativas indiretas são mencionadas no Dicionário Terminológico (DT), no verbete relativo ao tipo de frase interrogativa (domínio B.4.3.):

«[...] as interrogativas indirectas (iv) são subordinadas substantivas completivas. [Oração subordinada substantiva completiva] [...]

Exemplos [...]

(iv) O João perguntou [se comeste a sopa].»

Quanto ao que se diz no DT sobre como se introduzem as completivas (B. 4.4.), verifica-se que na informação aí disponível falta referir que tais orações podem ser introduzidas também por palavras de outras classes, por exemplo, por advérbios interrogativos:

1) «Perguntei-lhe porque esperava.»

2) «Não sei quando chega.»

Em 1) e 2) temos interrogativas parciais que se realizam como orações subordinadas completivas.

Observe-se, porém, que na Gramática do Português (organização de Eduardo B. Paiva Raposo et al., da Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, págs. 1835/1836) se aponta exatamente este facto:

«[A]s orações interrogativas subordinadas parciais caracterizam-se pelo facto de serem introduzidas [...] por um sintagma que contém obrigatoriamente uma palavra interrogativa, frequentemente designada "palavra qu-" em virtude da sua forma. Este pode um pronome [ii], um determinante [iii], um quantificador [iv] ou um advérbio [v] [:]


(ii) Ando a averiguar [quem é o responsável por este orçamento].
(iii) Não me disseram [que documentos eles aprovaram na reunião].
(iv) Não sei [a quantas lojas eles foram].
(v) Perguntaram-me [quando seria aprovado o orçamento].»

Convém assinalar dois aspectos em relação a esta citação da recém-publicada Gramática do Português:

a) não se fala aí em subordinação substantiva, mas, sim, em subordinação argumental, que é um termo equivalente (idem, p. 1821, n. 1);

b) o termo «palavra qu-» apenas é usado na referida gramática e, por enquanto, no âmbito universitário, não fazendo parte do DT.

Em conclusão, sugerimos que tais interrogativas indiretas parciais sejam classificadas como orações subordinadas substantivas completivas.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma