«E vedes qual será a loação»: oração subordinada - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«E vedes qual será a loação»:
oração subordinada

Antes de mais, gostaria de agradecer ao Ciberdúvidas o excelente trabalho que desenvolve.

Em seguida, coloco a minha questão: deparei-me recentemente, num manual de Português do 10.º ano, com a seguinte questão:

«Classifica a oração "qual será a loação" na frase "E vedes qual será a loação".»[1]

O que estranhei foi a solução proposta: oração subordinada substantiva completiva, pois, na minha modesta opinião, eu classificá-la-ia como uma oração subordinada substantiva relativa.

Assim, peço o vosso esclarecimento, que agradeço antecipadamente.

 

[1 N. E. – «E vedes qual será a loação» = «e  vedes qual será o louvor». Trata-se de um verso da conhecida cantiga satírica do trovador português João Garcia de Guilhade, "Ai dona fea, fostes-vos queixar". Assinale-se que, por preocupações didáticas, o manual em causa escreve "loação", mas a forma medieval é loaçom. Acrescente-se que loaçom, «louvor», assim como loar, que significa «louvar» são termos utilizados frequentemente na poesia trovadoresca. Registe-se, ainda, o vocábulo loa, antigamente também equivalente a «louvor», mas cujo uso contemporâneo ocorre sobretudo no plural, loas, no sentido de «mentiras».]

Luís Magalhães Professor Porto, Portugal 58

A frase em apreço é composta por duas orações:

− «E vedes»: oração subordinante

− «qual será a loação»: oração subordinada substantiva completiva

A oração subordinada é uma interrogativa indireta que corresponde à seguinte interrogativa direta:

(1) «Qual será a loação?»

Trata-se, porém, de uma interrogativa indireta com algumas especificidades que importa destacar:

(i) não relata uma pergunta: este funcionamento das orações interrogativas indiretas está descrito na Gramática do Português, onde os autores apresentam como exemplos deste comportamento as frases «O Ricardo sabe quem ganhou o jogo.» e «A Maria já decidiu se vem.» (cf. Raposo et al., p. 1835);

(ii) é uma interrogativa subordinada parcial, ou seja, não visa uma resposta de sim ou não;

(iii) não é introduzida por uma conjunção subordinativa completiva típica (que ou se), mas sim por um pronome interrogativo: a Gramática do Português refere, relativamente a estas interrogativas:

«Contrariamente às interrogativas subordinadas globais, que são introduzidas pelo complementador se, as orações interrogativas subordinadas parciais caracterizam-se pelo facto de serem introduzidas não por um complementador, mas antes por um sintagma que contém obrigatoriamente uma palavra interrogativa, frequentemente designada palavra que- em virtude da sua forma. Esta pode ser um pronome, um determinante, um quantificador ou um advérbio.» (idem, pp. 1835-1836)

Ainda relativamente à obra citada, Gramática do Português, convém acrescentar que nesta não se considera a oração em análise como um caso de subordinação substantiva, sendo antes classificada como subordinação argumental, o que constitui uma designação equivalente (idem, p. 1821, n. 1). 

O Ciberdúvidas agradece as gentis palavras que lhe endereça. Disponha sempre!

Carla Marques
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