O relativo «quanta» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O relativo «quanta»

Reparei que algumas gramáticas omitem o pronome relativo (terminologia brasileira) quanta (Celso Cunha...) e outras não (Evanildo Bechara...). Investiguei em várias e verifiquei que todas elas evitavam o tema nos exemplos.

Pela investigação no Google tornou-se-me claro que quanta existia como pronome relativo no português antigo, quer com função de adjetivo, quer com função de substantivo, mas não consegui concluir em relação ao português moderno. Quais das seguintes frases podemos considerar corretas?

A) Daquela água, ele bebeu toda quanta pôde.

B) Daquela água, ele bebeu toda quanto pôde.

C) Ele conseguiu tirar do motor toda quanta água nele tinha entrado.

A mim, me parecem todas corretas, mas fico perplexo com a coexistência de A) e B). Por que é que algumas gramáticas não colocam quanta na sua enumeração exaustiva dos pronomes relativos, mas colocam quantas?

Paulo Manuel Sendim Aires Pereira Engenheiro Brasília, Brasil 60

A integração de quanto entre as palavras relativas nem sempre foi consensual entre os gramáticos, não obstante, as modernas gramáticas de língua portuguesa consideram a palavra como pertencente às relativas (cf. Bechara, Moderna gramática portuguesa. Nova Fronteira, p. 144; Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, p. 664; Raposo et. al., Gramática do Português, p. 2099). Também Cunha e Cintra a incluem entre as palavras relativas (cf. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. João Sá da Costa, p. 342). Estranhamos, todavia, a não inclusão nesta última gramática da forma do relativo no feminino singular, quanta, sem qualquer justificação que permita compreender a opção dos autores.

Quanto, ao integrar uma oração relativa, pode funcionar como pronome relativo ou como especificador relativo1. Nas situações em que funciona como um pronome relativo, quanto é invariável, podendo ter ou não um antecedente explícito:

(1) «Ele comprou tudo quanto viu.» (com antecedente)

(2) «Ele comeu quanto quis.» (sem antecedente)

Neste caso, o antecedente de quanto será sempre o pronome indefinido tudo.

Nas situações em que quanto funciona como especificador, varia em género e número, podendo ter igualmente antecedente explícito ou implícito:

(3) «Ele comeu os chocolates tantos quantos pôde. / Ele comeu tantos chocolates quantos pôde.»

(4) «Ele comeu quantos chocolates pôde.»

Na frase (3), quantos é especificador porque se considera que o nome que ele determina está implícito, correspondendo a uma frase como (5):  

(5) «Ele comeu os chocolates tantos quantos [chocolates] pôde. / Ele comeu tantos chocolates quantos [chocolates] pôde.»

Quando o relativo quanto funciona como especificador, o seu antecedente expressa quantificação e poderá corresponder a todo ou tanto (e suas variantes morfológicas). Sendo especificador, quanto concorda em género e número com o nome que especifica, ainda que este esteja implícito (como acontece em (5)).

Considerando este funcionamento da palavra relativa quanto, concluímos que, nas frases apresentadas pelo consulente, apenas a frase (6) está correta, pois o relativo deve concordar em género e número com o nome que implicitamente especifica (água):

(6) «Daquela água, ele bebeu toda quanta pôde.»

(7) «*Daquela água, ele bebeu toda quanto pôde.»

 

Em termos sintáticos, verificamos que a utilização da palavra relativa quanto tem algumas limitações, que se observam em (8) e (9):

(8) «*Ele comeu chocolates quantos chocolates pôde.»

(9) «*Ele comeu tantos quantos chocolates pôde.»

A agramaticalidade nestas frases ilustra as seguintes limitações:

(i) O nome especificado só pode surgir uma vez na frase2 (o problema em (8) reside no facto de se repetir o nome chocolates)

(ii) quando o termo especificado está explícito na oração relativa, o antecedente2 (todo, tanto) terá de estar implícito (na frase (9), todo e chocolates não podem surgir simultaneamente).

Pelas razões expostas, em particular pela razão (ii), a frase (10) é incorreta:

(10) «*Ele conseguiu tirar do motor toda quanta água nele tinha entrado.»

A gramaticalidade da frase apresentada em (10) poderia ser restabelecida em frases como (11) ou (12):

(11) «Ele conseguiu tirar do motor toda a água quanta nele tinha entrado.»

(12) «Ele conseguiu tirar do motor quanta água nele tinha entrado.»

 

*sinaliza uma frase agramatical.

 

1. Em contexto escolar, quanto deverá ser classificado como quantificador relativo, em todas as situações de uso, de acordo com o previsto no Dicionário Terminológico. Note-se, por outro lado, que a Gramática do Português considera quanto um pronome relativo e um especificador. (cf. Raposo et al., Ob. cit. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 2099).

2. Para maior aprofundamento deste assunto, cf. Raposo et al., ob. cit. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 2099-2101.

Carla Marques
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Sintaxe Campos Linguísticos: Orações