O pronome se e o verbo supor na frase «cujas consequências se supõe graves e irrecorríveis» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
O pronome se e o verbo supor
na frase «cujas consequências se supõe graves e irrecorríveis»

«A advertência é própria para deixá-lo ciente do que se trata aqui, nestas páginas minguadas: um fugidio colóquio entre duas almas femininas – simples, corriqueiro e brando –, mas cujas consequências se supõe graves e irrecorríveis.»

Na frase acima o verbo supor está bem no singular?

Antecipadamente agradeço.

Fernando Bueno Engenheiro Belo Horizonte, Brasil 151

A forma do plural seria aqui menos polémica, como parece sugerir o prezado consulente: «…mas cujas consequências se supõem graves…», em que «supõem» é sinónimo de consideram. Estaríamos então em presença de uma estrutura apassivante, equivalente a «… mas cujas consequências são consideradas graves…»

A hipótese de usar a forma singular faz-nos cair na velha discussão sobre «vende-se casas» ou «vendem-se casas». As gramáticas em geral têm vindo a considerar a existência de um se que desempenharia a função de sujeito, pelo que o verbo não teria de concordar com mais nenhum elemento da frase: «Recorre-se demasiado aos tribunais» ou «Sabe-se estas coisas através dos jornais» como alternativa a «Sabem-se estas coisas através dos jornais». Nesta segunda frase, «estas coisas» é sujeito da frase, porquanto concorda em género e número com o verbo. Pessoalmente, prefiro esta última construção.

Por outro lado, também teremos que estabelecer se o verbo supor tem o mesmo comportamento sintático que o verbo considerar. Dois verbos sinónimos poderão não ter uma sintaxe igual. O verbo supor parece oferecer alguma resistência a uma construção com predicativo do complemento direto: como falante, aceito como mais natural a frase «Considero esta dúvida interessante» que a frase «Suponho esta dúvida interessante». Também parece oferecer alguma resistência à estrutura passiva: «*As consequências são supostas graves…» [1], ao contrário de «As consequências são consideradas graves…», que é uma frase correta.

Sintetizando, a estrutura frásica apresentada parece apresentar falhas sintáticas ou, pelo menos, usar uma construção “arriscada” com o verbo supor. Isto não quer dizer que a forma singular fosse ali definitivamente impossível: poderia o prezado consulente aceitar uma solução de compromisso, em que se acrescentasse a forma de infinitivo do verbo ser: “…mas cujas consequências se supõe [serem] graves…”?

 

[1 N.E. – O asterisco – * – indica que a construção é agramatical ou não aceitável. Sobre os problemas que, em matéria de norma, são levantados pelo uso de supor em construções passivas ver os Textos relacionados.]

Diamantino Antunes
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo