A utilização do hífen em pospositivos de origem tupi - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A utilização do hífen em pospositivos de origem tupi

Gostaria de saber como fica a utilização do hífen em pospositivos de origem tupi, como -mirim e -guaçu, com o novo acordo ortográfico. Exemplos: moji-mirim, moji-guaçu, biritibamirim, embu-mirim, embu-guaçu, apiaí-mirim, barueri-mirim, capivari-mirim, baquirivu-guaçu, jacaré-guaçu, taquari-guaçu, taquari-mirim, supucaí-mirim, etc.

[Notem, todavia, que] não estou interessado no uso feito pelos topônimos, que, em geral, não observam regra alguma. Gostaria de saber qual seria a regra correta, tanto a antiga quanto a moderna, para esses casos, quando consideramos esses substantivos meras palavras (ainda que não sejam observadas). Ou seja, se a palavra anterior termina em sílaba tônica, ou em determinada vogal, o uso seria, obrigatoriamente, com hífen ou tudo junto, a partir de agora? Segue minha pergunta anterior novamente (removi as letras maiúsculas para não pensarem que se trata de topônimos).

Obrigado.

Thomas Gonçalves Publicitário São Paulo, Brasil 6K

Com os pospositivos -açu, -guaçu e -mirim, mantêm-se as condições de uso do hífen previstas pela anterior norma ortográfica. Assim:

1. No Vocabulário Ortográfico de 1943, Base IV, 4.º, determinava-se o seguinte1:

«Nos vocábulos formados por sufixos que representam formas adjetivas como açu, guaçu e mirim, quando o exige a pronúncia e quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada gràficamente: andá-açu, amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu, etc.»

2. No novo Acordo Ortográfico, na Base XVI, 3.ª, mantém-se o mesmo critério: «Nas formações por sufixação apenas se emprega o hífen nos vocábulos terminados por sufixos de origem tupi-guarani que representam formas adjetivas, como açu, guaçu e mirim, quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente ou quando a pronúncia exige a distinção gráfica dos dois elementos: amoré-guaçu, anajá-mirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim

Isto não impede que existam formas aglutinadas, quer em nomes próprios (topónimos), quer em substantivos comuns: Biritibamirim (São Paulo), Mojimirim (São Paulo), acará-açu/acarauaçu/acarauçu/acaraçu2 (cf. Dicionário Houaiss). Devo assinalar que acarauaçu, acarauçu e acaraçu decorrem da alomorfia do próprio sufixo -açu, que tem também as formas -guaçu, -uaçu e -uçu, aglutinando-se as últimas duas formas ao primeiro elemento (acarauaçu, acarauçu).3 De qualquer modo, a ortografia de substantivos comuns e próprios formados com estes sufixos parece um tanto instável, impondo-se em casos como o dos topónimos uma tradição desviante em relação aos preceitos ortográficos oficiais.

1 No texto do Acordo Ortográfico de 1945, Base XXX, lê-se: «Emprega-se o hífen nos vocábulos terminados por sufixos de origem tupi-guarani que representam formas adjectivas, como açu, guaçu e mirim, quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente ou quando a pronúncia exige a distinção gráfica dos dois elementos: amoré-guaçu, anajá-mirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim

2 O mesmo que apaiari, «peixe teleósteo, perciforme, da fam. dos ciclídeos (Astronotus ocellatus), de distribuição amazônica; é o maior acará brasileiro, atingindo até 30 cm de comprimento, de coloração verde-escura com manchas vermelhas, e cauda com um ocelo escuro» (Dicionário Houaiss).

3  «[O sufixo -açu provém] do tupi gwa`su "grande", port[uguês] -guaçu; ocorre nas var[iantes].: tupi -wa`su, port[uguês] -uaçu, com red[ução] do grupo iniciado por consoante velar sonora -gw- à semivogal posterior arredondada -w-, formando-se o ditongo -wa- em posição pretônica; tupi -a`su, port[uguês] -açu, com queda da semivogal; tupi -u`su, port[uguês] -uçu, com mudança de -a- para -u-, prov[avelmente] favorecida pela flutuação do timbre de vogais pretônicas, que, em contextos formais favoráveis, tende a se aproximar do timbre da vogal tônica final [...] (Dicionário Houaiss).

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Etimologia; Ortografia/Pontuação