DÚVIDAS

O bafômetro e o balão = alcoolímetro
No Brasil, tem o nome de "bafômetro" um pequeno aparelho portátil utilizado pelas polícias de trânsito urbanas e rodoviárias, para verificar o grau de teor alcoólico existente na corrente sangüínea dos condutores de veículos, que, se for alto, caracteriza o estado de embriaguez, que compromete a capacidade de conduzir, podendo então gerar acidentes de trânsito. Essa pequena máquina é dotada de uma espécie de boquilha onde o motorista suspeito de estar ébrio é convidado ou constrangido a assoprar. Logo após, a máquina, pela quantidade de álcool existente no hálito, calcula o grau de alcoolemia do condutor, exibindo o resultado num visor de que também é dotada. O termo "bafômetro", além de vulgar, inculto e ridículo, parece-me impróprio, uma vez que essa palavra é formada de "bafo" (que significa hálito) mais o elemento de composição erudito grego "-metro" (que significa "que mede", "medidor"). Assim, morfologicamente, esse vocábulo significa "que mede bafo" ou "que mede hálito" ou ainda "medidor de bafo" como também "medidor de hálito". Ora, como ficou, penso eu, bem claro acima, essa engenhoca não serve para medir o bafo ou hálito de ninguém. Mede sim o grau de alcoolemia, do qual se deduz a bebedeira de uma pessoa. A confusão vem do fato de medição ser feita analisando-se o hálito do suspeito de ebriedade. É de se registrar que, sendo "-metro" elemento de composição grego e erudito, exige antes de si outro elemento de composição erudito grego ou, quando muito, latino, o que não é o caso de bafo. Vejam-se os exemplos: cronômetro, anemômetro, barômetro, gasômetro, pluviômetro, etc. Não tenho a menor dúvida que "bafômetro" é um vocábulo incorreto, mas não sei qual é o termo certo para designar esse aparelho em apreço. Por essa razão, rogo-lhes que me esclareçam. Qual é o termo correto no Brasil e em Portugal?
O uso do vocábulo surreal
Hoje é muito comum utilizar a palavra «surreal» em vez de «surrealista». Esta última utiliza-se para referir o ideário, a primeira utiliza-se de forma quase indistinta para falar de algo muito estranho, invulgar. Não encontro a palavra «surreal» em nenhum dicionário e creio que se trata de mais uma influência do inglês. Faz algum sentido utilizar este anglicismo quando «surrealismo»/«surrealista» são termos perfeitamente adequados?
Sobre recursos expressivos em Ulisses
Tento auxiliar um filho que está no 6.º ano e que está a estudar uma obra intitulada Ulisses. Contudo, as minhas memórias sobre recursos expressivos (ou estilísticos?) são vagas. Como classificar: «O mar que era caminho parecia querer transformar-se em porta que se fechava à sua frente»? Pretendo também construir-lhe exercícios para fazer em casa, mas gostaria de esclarecer se estes exemplos estão correctos ou não. Em alguns casos, hesito como classificar (ou se poderá mesmo ser classificado). Assim, «E o canto chorava, suavíssimo, violentíssimo» pode servir de exemplo para a metáfora, ou para a antítese? «Dizem que não ficou pedra sobre pedra» (acerca da destruição de Tróia) — será uma metáfora, ou uma hipérbole (ainda não a estudou)? «Ulisses uivava para os companheiros: – Parem!» será uma metáfora? «HOMENS... HOMENS... HOMENS...» pode ser um exemplo de repetição, ou de suspensão da frase? «Tudo aqui é ciclópico: os animais, as plantas, as pedras...» pode ser um exemplo de enumeração, ou de suspensão da frase? «Beberam, comeram, ofereceram sacrifícios... Beberam, comeram, dançaram...» pode ser um exemplo de enumeração, ou de repetição expressiva? Muito obrigada pelo vosso auxílio.
Fumaça como brasileirismo
Antes, durante e depois do recente conclave que elegeu o papa Francisco, aqui no Brasil muito se falava da «fumaça branca» e da «fumaça preta» que sairiam ou saíram da chaminé da Capela Sistina, embora em português clássico fosse mais correto, num caso como este, dizerem-se «fumo branco» e «fumo preto», enquanto a palavra fumaça seria reservada para designar uma quantidade enorme de fumo, o que evidentemente não é o que sai de uma pequena chaminé. No Brasil, até mesmo o fumo que se exala de um cigarro aceso é chamado de fumaça, e de resto qualquer fumo é fumaça, não importando a quantidade. Aqui a palavra fumo designa o tabaco ou o tabaquismo. A ouvidos brasileiros soaria estranho ouvir dizer-se, por exemplo: «Saiu fumo branco da chaminé da Capela Sistina.» Pergunto-vos, pois, se a palavra fumaça, quando usada para designar qualquer quantidade de fumo, ainda que pequeníssima,é um brasileirismo. Também vos indago sobre como as palavras fumo e fumaça são usadas pelos portugueses. Muito obrigado.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa