DÚVIDAS

«Até aí, morreu o Neves»
Gostaria de perguntar-lhes sobre a origem de duas expressões usadas no Brasil (e talvez também em Portugal): 1. «Até aí morreu Neves...» — significando «Isso já é sabido e não acrescenta nada de importante». 2. «Foi a alma do Cunha» — empregada quando se ouve em casa algum ruído de origem desconhecida e não passível de fácil determinação. O máximo que já consegui, depois de muita pesquisa, foi saber que, segundo João Ribeiro, citado por Antenor Nascentes, em seu Tesouro da Fraseologia Brasileira (terceira edição revista por Olavo Aníbal Nascentes. [Rio de Janeiro]: Editora Nova Fronteira, [1986], s. v. Neves), a frase «Até aí morreu Neves» poderia ter origem em algum entremez, vaudeville ou comédia. E nada mais diz sobre a data, local e origem da pretensa peça... Continuo, portanto, curioso sobre quem teriam sido os tais Neves e Cunha (personagens reais ou imaginárias?, portugueses ou brasileiros?...). Agradeceria muito se algum dos senhores pudesse lançar maiores luzes sobre a distinta dupla.
Estrutura e formação de palavras
Estou escrevendo uma série de livros de 5.ª a 8.ª série e pretendo usar testes de vestibulares. No assunto Estrutura e Formação de Palavras, tenho dúvidas quanto a dois gabaritos de vestibulares da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Ei-las: Em UFSC - 98, o gabarito oficial considerou correta a proposição 01, concorda? 01) A flexão de gênero em ateu > atéia e em judeu > judia provoca uma alteração nos radicais, já em peru > perua e doutor > doutora, os radicais mantêm-se os mesmos. Em UFSC - 93, o gabarito oficial considerou correta a proposição 02, concorda? 02. A palavra "rejuvenescer" apresenta, simultaneamente, o prefixo "re-" e o sufixo "-escer". Em 01, considerar que a adição da desinência de gênero feminino alterou o radical de ateu para atéi e de judeu para judi. Não é lógico, entretanto, em vista de palavras como ateísmo, ateísta, ateístico, ateização e ateizar considerar ateu como radical. Levando-se em conta sua família etimológica deveria este ser atei-. Ou ainda, considerar judeu como radical quando se examina seus cognatos judiar, judiação, judiaria. O radical deve ser judi-. Concorda? Em 02, como o Aurélio registra juvenescer, não se pode falar que o acréscimo de re- e -escer é simultânea. Temos aqui uma prefixação e sufixação. Concorda?
Novo acordo, problemas diversos, entrada em vigor
Tenho seguido com verdadeira paixão a questão do dito «Acordo» Ortográfico. Confesso que, desde o início, tenho sido manifestamente contra tal espécie de tratado, mas procurei conhecê-lo mais a fundo e encontrei aqui o documento na íntegra, que acabei de ler. Devo confessar que me deixou muito esclarecido mas que me levantou dúvidas. Assim sendo, coloco-vos algumas perguntas que peço que me sejam respondidas, pois, como já disse noutras ocasiões, sou quase um ignorante na matéria. 1. Há tantas possibilidades de opção apresentadas para a escrita. Dadas as circunstâncias, não se poderá continuar a escrever de modo exactamente igual ao que já se escreve agora depois de entrar em vigor este «acordo»? 2. Se sim, então qual o porquê do «acordo»? 3. Não será criar uma confusão desnecessária e inexistente hoje permitir uma série de facultatividades ortográficas quando uma palavra se diz de um só modo? Lembro que na redacção de 1945 as facultatividades resultavam da existência de várias formas orais, ao contrário do que se verifica agora. 4. Discordo de todo com a alínea b do ponto 1 da Base IV. Entendo que, se as consoantes lá estão, por qualquer motivo é, e passo a explicar. Na maior parte dos exemplos dados, as consoantes a suprimir são mudas, mas não em algumas palavras derivadas delas (óptimo com optimizar, entre outros). Estas letras pronunciam-se na linguagem corrente e em contexto erudito em certos casos, mas noutros servem para abrir a consoante que a antecede. Então e agora? Escreve-se nuns casos e não noutros? 5. Como poderemos de futuro distinguir ato (refiro-me a acto) de ato conjugação do verbo atar ou, como aparece noutro lado, pára de para senão pelo contexto? 6. Na sequência da pergunta anterior, não resultará daqui uma tremenda e acrescida dificuldade do estudo etimológico? Pergunto isto porque, visto que, por exemplo, afectação perde o c que abre o e e deixa de se ler "aféctação" e passa a ler-se "afetação", parece que passa a palavra a ser relativa não a afectar (isto é, fazer determinado efeito a algo) mas a «a fetar» (algo relativo a um feto). 7. Na mesma alínea é dado o exemplo do nome Egipto. Ora neste caso o p também se diz, mas é suprimido à mesma. Tendo em conta as questões anteriores e o princípio defendido pelos «tratantes» de que a uma mudança de grafia não corresponde uma mudança da maneira de falar, como explicar que deixemos de dizer "Egipto" ou "Egípcios" e comecemos a dizer "Egito" e "Egícios", entre outros? 8. Uma vez que a língua é portuguesa e não originária de outros países lusófonos, não deveria a nossa grafia prevalecer pura e simplesmente sobre as outras? Se a língua tende a diferenciar-se nos outros países, em especial no Brasil, e isso é algo de inevitável, então porquê insistir em tentar unificar o que não é uno, sacrificando a estabilidade da língua-mãe? Se eles querem escrever à maneira deles, porque não deixá-los? Às vezes fico com a impressão de que os nossos governantes se preocupam mais com o que se passa no estrangeiro do que no próprio país. Porém, creio que a esta pergunta nem vós sabeis nem ninguém mais sabe dar resposta... 9. Como especialistas da língua, qual a opinião do Ciberdúvidas quanto ao «acordo»? Mudando de assunto, é dito na entrada do Ciberdúvidas que: «A normalização do português europeu, instrumento fulcral em áreas como a comunicação social, a tradução e o ensino, é, actualmente, uma zona de ninguém. A investigação em linguística portuguesa com os países lusófonos em intercâmbio é uma quimera.» Lamento discordar, pois é certo e sabido que tais tarefas já se encontram há décadas aos cuidados da Academia das Ciências. Como muitas das coisas neste nosso pobre e triste país, não será também neste caso desnecessária a criação de uma academia da língua? Com os melhores cumprimentos e sinceros votos de boas festas para todos.
Qual em frases interrogativas (Portugal vs. Brasil)
Sou portuguesa, mas vivo atualmente no Brasil. Gosto de ouvir e comparar as especificidades regionais da língua mas, por vezes, surgem-me algumas dúvidas quanto à "gramaticalidade" de algumas construções frásicas. Uma delas inclui o uso que os brasileiros fazer do pronome interrogativo qual – ou que nós não fazemos, dependendo do ponto de vista. :) Em Portugal (pelo menos em Lisboa, que é de onde eu sou) não é comum usar o pronome interrogativo qual a preceder imediatamente um substantivo. Normalmente usamos o que: «Em que casa é que ela vive?» (E não «Em qual casa...?»); «Para que dia ficou marcada a reunião?» (e não «Para qual dia...»); «Com que roupa é que vais?» (e não «Com qual roupa...?»), etc. Usamos normalmente o qual se ele surge como pergunta inteira («– Gosto daquele relógio»; «– De qual?») ou se vem diretamente antes de um verbo (incluindo o famoso auxiliar de perguntas «é que»): «De qual é que gostas mais?»; «De quais gostas mais?» No entanto, ouço com bastante regularidade os brasileiros utilizarem «de/em/para qual + substantivo». Um dos exemplos mais comuns é com os dias: «Em qual dia da semana você nasceu?» (Enquanto um lisboeta perguntaria: «Em que dia da semana...?») A minha pergunta é (sem pôr em questão a legitimidade da prática popular dos brasileiros em fazer uso dessa construção): do ponto de vista puramente gramatical, é possível dizer que está correto perguntar «qual + substantivo» («Em qual dia?»), ou soa-me mal simplesmente porque eu não estou habituada? Desde já agradeço antecipadamente a resposta a esta dúvida. E agradeço pelo vosso excelente trabalho em geral. Um verdadeiro serviço de utilidade pública! Obrigada!
«Resignar um cargo» dif. de «resignar-se com um cargo»
Agradecia que me esclarecesse do seguinte: No dicionário, o verbo "resignar" tem a seguinte explicação: "v. tr., renunciar a; demitir-se de; abdicar de; exonerar-se; v. refl., conformar-se; ter resignação". (in Dicionário da Porto Editora) Assim sendo, "resignar-se do cargo" deve ser interpretado com a primeira ou segunda explicação? (i.e. "resignar-se" aqui é um verbo transitivo ou verbo reflexo?) Na minha opinião, deve ser entendido como a conjugação do verbo com o pronome reflexo -se (isto é: conjugação reflexiva do verbo "resignar"). Todavia, se for v. refl. como se explica que "resignar-se de um cargo" tem o sentido de "conformar-se"?
Plurais de palavras graves acentuadas: dólmen, cólon
Caros amigos do Ciberdúvidas, gostaria de uma explicação quanto às regras de acentuação para o plural de palavras como dólmen, sêmen, lúmen, éden, hífen, gérmen, abdômen, etc. Por favor, considerem o meu pedido de explicação relativo ao plural terminado em ns, e não em nes. A minha dúvida surgiu quando, no dicionário eletrônico Houaiss, encontrei o plural germens em contraste com "sêmens"; cólons em contraste com "abdonens". Tenham os meus sinceros agradecimentos.
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