DÚVIDAS

O complemento do verbo acertar
Qual é a sintaxe do verbo acertar no sentido de «bater, atingir»? O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa traz: «Acertou com a pedra no vidro da janela.» Seria possível «acertar com a pedra "o vidro da janela"»? Qual a função sintática do complemento «no vidro da janela»? A Academia dá ainda este exemplo de Camilo: «O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.» Qual a função sintática do lhe? Há alguma relação entre o lhe e o facto de o complemento ser no vidro da janela, em vez de o vidro da janela? Agradecidíssimo!
Orações relativas não canónicas: «aquilo que é...»
Tenho notado que há um hábito muito comum e cada vez mais generalizado de utilização da expressões «aquilo que é/daquilo que é/ aquilo que são/daquilo que são» principalmente em contexto de comentário televisivo. Exemplos: «[Aquilo que é] a origem do conflito…..», «A origem d[aquilo que é] a vida….», «Não sabemos [aquilo que são] as intenções do Presidente….», «Estamos a par [daquilo que é] o impacto desta guerra», «Estamos conscientes d[aquilo que é] a devastação provocada….». Poderíamos até complicar mais: «[Aquilo que é] a origem d[aquilo que é] este conflito». Todos estes «aquilo que é» são perfeitamente suprimíveis das respetivas frases: «A origem da vida…», «Não sabemos as intenções do Presidente», «Estamos a par do impacto desta guerra», «Estamos conscientes da devastação provocada». Penso que o recurso a esta irritante expressão se deve ao facto de constituir uma espécie de muleta de linguagem, no sentido de dar mais tempo ao orador para pensar no que vai dizer a seguir, o que se compreende (similarmente ao uso de outras muletas mais óbvias como “â” ou “portanto”), muleta essa perfeitamente dispensável. De qualquer modo gostaria de saber se semanticamente a expressão acrescenta algo (como uma espécie de focalização ou clivagem no sentido de destacar um dos elementos da frase) e gostaria também de saber como classificar essas orações do ponto de vista sintático. Para ilustrar, vejamos o caso concreto da seguinte frase simples: «A origem da vida é um mistério.» Transformando-a na seguinte frase complexa: «Aquilo que é a origem da vida é um mistério.» Ficamos com uma oração substantiva relativa sem antecedente (com a função de sujeito) seguida da respetiva subordinante? Ou, contrariamente, devemos assumir que continuamos perante uma frase simples que foi “complexificada” por um elemento discursivo redundante típico da oralidade? Por outro lado, parece-me que por vezes estas orações artificiais são substantivas completivas, noutros casos substantivas relativas, ou até ponho a hipótese de serem adjetivas relativas, mas sempre perfeitamente dispensáveis. Gostaria de ter a vossa preciosa ajuda para esta questão, aproveitando para desejar um bom início de terceiro período letivo a toda a equipa do Ciberdúvidas, a quem agradeço a paciência.
O complemento do nome preconceito
Considere-se a frase: «António sente que o preconceito com a comunidade brasileira é grande e o crime organizado aproveita-se.» O constituinte «com a comunidade brasileira» classifica-se de acordo com qual das duas designações? 1. Um complemento do nome, pois alguns nomes derivam de verbos ou adjetivos que exigem um argumento para completar o seu sentido. O nome preconceito implica que algo ou alguém é o alvo desse sentimento. Quem tem preconceito, tem preconceito contra algo ou com alguém. Ao contrário de um modificador (como antigo ou injusto), que apenas acrescenta uma característica, o constituinte «com a comunidade brasileira» preenche o sentido do que é o preconceito neste contexto. O nome preconceito é de natureza relacional ou de processo. Se dissermos apenas «O preconceito é grande», a frase é gramatical, mas fica semanticamente incompleta no contexto da mensagem do António. O constituinte «com a comunidade brasileira» funciona como o argumento interno do nome, sendo que este grupo preposicional define o objeto do preconceito, restringindo-o de forma tão intrínseca que ele atua como um complemento selecionado pelo nome. 2. Um modificador do nome: o nome preconceito já tem sentido completo por si só (?). A expressão «com a comunidade brasileira» apenas especifica quem é alvo do preconceito, mas não é obrigatória para que a palavra preconceito faça sentido. Por isso, segundo o Dicionário Terminológico, esta expressão é um modificador do nome (facultativo), e não um complemento do nome (obrigatório). Antecipadamente grata pela explicação, fico a aguardá-la.
Negação, coordenação e as conjunções e e ou
Nestas três frases aqui, o mais indicado é utilizar "e"? Ou utilizar "ou"? E por quais motivos isso? 1) «Nenhum dos dois (pai e filho) quer arcar com as despesas!» («Pai e filho», ou «pai ou filho»?) 2) «Não convidei seu irmão e, muito menos, seu primo!» («E, muito menos» ou «ou, muito menos»?) «Ir à praia e ir à cachoeira»: qual será a melhor opção? «Ir à praia e ir à cachoeira» ou «Ir à praia ou ir à cachoeira»? Gramaticalmente correto e esteticamente bonito, qual vocês mesmos indicam para usar? E por que será? Muitíssimo obrigado e um grande abraço!
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