DÚVIDAS

A expressão «estar para» + lugar
Antes de mais, boa noite. Durante uma conversa com um amigo, surgiu uma duvida gramatical, após a frase «lembrei-me quando estava para a cozinha», ter sido dita. A frase «lembrei-me quando estava para a cozinha» é gramaticalmente válida? Quando penso na mesma, a frase que me parece correta seria «lembrei-me quando estava na cozinha», contudo, quando separo e analiso as palavras individualmente e com as respetivas ligações, não consigo encontrar um motivo para a mesma estar errada. Sendo que a ausência de motivos ainda é acompanhada pelo reforço da expressão «para a», ser comumente utilizada noutras frases tal como por exemplo, «lembrei-me quando fui para a cozinha». Neste momento, apenas estou confuso, e não consigo perceber o porquê de num sitio, soar estranho/errado. Agradeço que quem potencialmente responder justifique e explique um pouco o porquê, independentemente de certo ou errado.
Gomagem, outra vez
Para esclarecer a vossa consulente que vos pergunta o que é um "creme de gomagem" haveria que acrescentar que se trata aqui de um aportuguesamento do termo francês "gommage", que significa, neste caso, a acção de raspar com uma borracha ("gomme" em francês). A função deste creme, segundo um produto de cosmética que tenho à minha frente, é "raspar as células mortas e favorecer a renovação celular, ficando a epiderme assim mais recetiva (receptiva) aos cuidados aplicados em seguida". Os ingleses chamam a isto "peeling". Quanto a saber se a palavra existe ou não em português, isso depende das perspetivas (perspectivas). Para mim, a partir do momento em que a palavra é aportuguesada e usada, passa a existir. Para outras pessoas só existe se estiver no dicionário e, para outras pessoas ainda, pode não existir mesmo que já esteja no dicionário (veja-se o caso recente dos "dinossáurios").
Euromaidan e Europraça
O termo “Euromaidan”, em rigor, significa “europraça”. Assim se chama porque no fim de 2013 surgiram protestos antigoverno e pró-União Europeia, e eles tiveram como centro a praça da Independência, na capital do país. Ou seja, sendo os protestos pró-União Europeia e centrados numa praça, a palavra “Euromaidan” surgiu, e passou a ser amplamente usada pela mídia. Após algum tempo, a palavra passou a representar não somente a praça, mas também o movimento inteiro que levou à derrubada do governo naquela época. Na mídia e na escrita acadêmica anglófona, não se fala dos protestos da Ucrânia em si, mas sim do (movimento da) “Euromaidan”. A Real Academia Española, atenta à movimentação, adaptou a grafia ao castelhano: “Euromaidán”. Ela passou a ser usada na hispanosfera normalmente. A meu ver, a forma natural de se traduzir o termo para o português seria grafando-o como “Euromaidã”. Entretanto, ninguém da mídia portuguesa nem da mídia brasileira o fez. Não encontrei um texto na Internet que o empregasse. Pergunto: 1. Uma palavra nova aportuguesada só entra nos dicionários caso seja utilizada pelas pessoas? Como isso se define? Qual é o critério? 2. Caso alguém a utilize num texto acadêmico sem que ela esteja registrada num dicionário, poderá esse uso ser criticado?
O que era, o que é e o que virá, outra vez
A resposta do Prof. José Neves Henriques suscita uma dúvida de ordem semântica, que está na origem da minha pergunta. Vejamos: "o que era, que é e que virá" não me parece ser o mesmo que "o que era, o que é e o que virá". Na primeira frase há uma idéia de simultaneidade, e, na segunda, não. Supondo-se que se trata do passado, do presente e do futuro, não é possível, no âmbito do pensamento, visualizar algo que incorpore simultâneamente os três estados temporais. Assim, se, a exemplo do prezado Professor, mudássemos a frase, teríamos: "Na Bíblia, o passado, o presente e o futuro são descritos com sabedoria" (verbo no plural, concordando com o sujeito composto). Não se poderia estender esse raciocínio para cada pronome "o", que adquiriria um caráter semântico diferente dos demais, forçando a considerar a frase constituída de sujeito composto com três núcleos, portanto, com o verbo no plural? Evidentemente o verbo no singular soa melhor; evidentemente, como já tem repetido o Prof. José Neves Henriques, a Língua é também para ser sentida; mas a questão permanece... Obrigado.
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