DÚVIDAS

Comprometer, um antigo galicismo
Gostaria de saber qual é o galicismo existente no trecho abaixo transcrito, extraído da obra Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco (1825-1890): «Paula fitou-me e coçou a testa com o leque. Noutro intervalo da dança continuei: Por que não respondeu à minha carta? Era impossível. Eu já dei o meu coração. Por delicadeza lhe não devolvi a sua carta, e peço-lhe que me não escreva outra, que me compromete, respondeu ela. Não me soou bem este galicismo dos lábios de Paula. Eu, em todas as situações da minha vida, quando vejo a língua dos Barros e dos Lucenas comprometida, dou razão ao filósofo francês que, à hora da morte, emendava um solecismo da criada, protestando defender até ao último respiro os foros da Língua. E com que admiração eu leio aquilo do gramático Dumarsais, que, em trances finais de vida, exclamava: "Hélas! Je m'en vais... ou je m'en vas... car je crois toujours que l'un et l’autre se dit ou se disent!"» Muito obrigado pela atenção dispensada.
«Ao início» e «no final»
Usa-se a expressão «ao início», ou «no início»? Por ex.: «No início ele ficou com dúvidas...», ou «Ao início ele ficou com dúvidas...» (eu digo sempre «no princípio ele ficou com dúvidas...»)? Não uso normalmente a palavra início, mas agora ouço muito este termo, tal como ouço «no final». Por ex.: «No final do mês eu informo-te...» Para mim será «no fim do mês». [...] Será que me pode tirar esta dúvida?
O significado de folclore
Estudo o folclore há cerca de 50 anos, e durante 35 fiz a pesquisa etnocultural da freguesia de Montargil, que por alguns especialistas é considerada uma referência na região. E o que é para nós, folcloristas e etnógrafos, o folclore? Digamos que a expressão de todas as vivências das gentes de antigamente quando ainda não eram influenciadas por diferentes maneiras de ser e de estar. Mas todos conhecemos expressões como «não ligues, que isso não passa de folclore», o que a Sociedade da Língua Portuguesa diz só se poder admitir a pessoas analfabetas ou de pouca cultura. Acontece ainda que em Portugal é marcante o desconhecimento sobre a matéria. Mas o que eu agradeço, antes que volte ao vosso contacto – os vossos esclarecimentos são importantes! –, é que me digam o que entendem como folclore. Obrigado.
Espirado em João de Barros (1496-1570)
Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 26, p. 477, col. 1, l. 25, observa-se, na entrada sabedoria, uma referência ao romance de cavalaria Crónica do Imperador Clarimundo (João de Barros, Coimbra, 1522): «… e pois isto que disse mais foi espiorado de sua graça que de minha sabedoria…» (capítulo 28.º). Tendo efetuado alguma pesquisa, não encontrei o termo "espiorado" em nenhum lugar, devendo confessar que foi breve e superficial a pesquisa efetuada. A minha questão é, pois: o termo "espiorado" foi palavra portuguesa – hoje um arcaísmo –, ou trata-se de uma gralha na referida enciclopédia? Se é arcaísmo, isto é, se realmente existiu, qual o significado que hoje se pode atribuir? Antecipadamente grato, pela V.ª dedicação.
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