Diamantino Antunes - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Diamantino Antunes
Diamantino Antunes
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Doutorando em Linguística Portuguesa Descritiva, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP); mestre em Linguística Descritiva; assistente de linguística na FLUP (2002-2004); investigador do CLUP.

 
Textos publicados pelo autor

A forma do plural seria aqui menos polémica, como parece sugerir o prezado consulente: «…mas cujas consequências se supõem graves…», em que «supõem» é sinónimo de consideram. Estaríamos então em presença de uma estrutura apassivante, equivalente a «… mas cujas consequências são consideradas graves…»

A hipótese de usar a forma singular faz-nos cair na velha discussão sobre «vende-se casas» ou «vendem-se casas». As gramáticas em geral têm vindo a considerar a existência de um se que desempenharia a função de sujeito, pelo que o verbo não teria de concordar com mais nenhum elemento da frase: «Recorre-se demasiado aos tribunais» ou «Sabe-se estas coisas através dos jornais» como alternativa a «Sabem-se estas coisas através dos jornais». Nesta segunda frase, «estas coisas» é sujeito da frase, porquanto concorda em género e número com o verbo. Pessoalmente, prefiro esta última construção.

Por outro lado, também teremos que estabelecer se o verbo supor tem o mesmo comportamento sintático que o verbo considerar. Dois verbos sinónimos poderão não ter uma sintaxe igual. O verbo supor parece oferecer alguma resistência a uma construção com predicativo do complemento direto: como falante, aceito como mais natural a frase «Considero esta dúvida interessante» que a frase «Suponho esta dúvida interessante». Também parece oferecer alguma resistência à estrutura passiva: «*As consequências são supostas graves…» [1], ao contrário de «As consequências são consideradas graves…», que é uma frase correta.

Sintetizando, a estrutura frásica apresentada parece apresentar falhas sintáticas ou, pelo menos, usar uma construção “arriscada” com o verbo supor. Isto não quer dizer que a forma singular fosse ali definitivamente impossível: poderia...

O facto de a frase apresentada pelo consulente estar incompleta dificulta um pouco a compreensão do enunciado. No entanto, julgamos estar em presença de uma oração resultativa (ou consequencial)2, que se caracteriza por expressar o resultado ou a consequência da situação descrita na oração subordinante:

(1) «Ele coordenou estudo e trabalho, de forma que/tal que passou de ano.»

A conexão entre as duas orações da frase em questão é assegurada pela locução conjuncional tal que, que é invariável, pelo que, entre as frases apresentadas pelo consulente, a correta será:

(2) «Essas funções, com formas ainda desconhecidas, são combinadas aos campos B e Q, respectivamente, tal que as seguintes identidades são construídas: [...]"

Note-se, por fim, que esta locução conjuncional parece ser utilizada preferencialmente em textos de domínio técnico e científico, como se pode observar nos exemplos extraídos do CRPC (Corpus de Referência do Português Contemporâneo):

(3) «Sob o nome de divisão vectorial tratamos o problema seguinte: dados os vectores a e b, determinar um vector u tal que e, pela identidade de Lagrange, seja um vector da forma lower_than >.» (Alves, Mecânica Geral)

(4) «Constrói um quadrado [ EFGH ], tal que o comprimento de cada um dos seus lados seja 3 cm.» (Armelim e Morla, Aprender Matemática 1.)

 

Disponha sempre!

 

1. Cf. Lobo, in Raposo, Gramática do português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2014-2015.

2. No quadro de uma abordagem no âmbito do ensino não superior, esta oração poderi...

A gramática considera que há verbos de natureza diferente, havendo, neste sentido, diferentes propostas de classificação: verbos plenosverbos funcionais e verbos auxiliaresverbos principais e verbos auxiliares; verbos transitivosintransitivos e copulativos, entre outras propostas, mas isto o consulente sabe já, sem dúvida.

Em si, o verbo não é uma função sintática, embora já tenha havido propostas no sentido de atribuir ao verbo a função de predicado. Nessas propostas, considerava-se, no entanto, que os verbos de ligação, só por si, não preenchiam totalmente esse requisito, pelo que tinham que ser considerados em bloco com o predicativo do sujeito. Assim, na referida proposta, seriam predicado: «está bem», «é simpático», «parece aborrecido», etc.

É geralmente aceite, mais recentemente, a ideia de que o verbo copulativo, ou de ligação, forma o predi...

Se observássemos os exemplos apresentados de forma simplista e linear, poderíamos crer que se trata de uma frase simples, apenas contendo os elementos essenciais da oração. Neste caso, a vírgula pareceria desnecessária. No entanto, parece-me que a estrutura aqui utilizada é ligeiramente mais complexa: A sequência de palavras «e você» poderia funcionar como tópico ou tema, cuja fronteira em relação à restante frase, na oralidade, é marcada prosodicamente com pausa e entoação própria, e, na escrita, é marcada com uma vírgula. Após a vírgula, surge então o designado, na linguística, comentário ou rema. Nesta parte da estrutura estaria prevista uma posição vazia, pertencente ao constituinte que agora se encontra no início da frase, que até poderia estar pleonasticamente preenchido, pois, num tom ou registo oralizante, muito é permitido:

«E você, como está (você)?»

Outros exemplos que ilustram esta possibilidade de forma mais clara:

«E seu pai, como está ele?» / «E seu pai, como ele está?»

Realmente, este uso particular da vírgula raramente aparece referido nas listagens didáticas de situações em que se deve ou não utilizar. Mas não devemos esquecer a sua intrínseca li...

Na oração gerundiva periférica (aquela que se separa por vírgula e antecede por via de norma a oração principal) podemos encontrar, de facto, um sujeito DP ou pronome (cf. Lobo 2006):

1) «Estando [DP o Pedro] doente, a mãe teve de ficar em casa.»

2) «Estando [pron. ele] doente, a mãe teve de ficar em casa.»

No entanto, isso acontece quando o sujeito da gerundiva não é correferente do sujeito da oração principal. Neste caso, só poderá realizar-se lexicalmente numa das duas orações, quase sempre na principal:

3) (?) «Estando [o Pedro] doente, [ - ] teve de adiar a apresentação do trabalho.»

4) «Estando [ - ] doente, [o Pedro] teve de adiar a apresentação do trabalho.»

É também verdade que, nas gerundivas, o sujeito surge, numa distribuição linear, à direita do verbo (como nos exemplos 3 e 4). Por vezes pode aparecer à esquerda, mas numa posição acima na estrutura (como tópico marcado), como é disso evidência a vírgula:

5) «O Pedro, [su - ] estando doente, [su - ] não apresentará o trabalho na próxima semana.»

De resto, não creio que existam assim tantas diferenças entre PE e PB no tocante a estas subordinadas (poderá ser mais recorrente numa variante que noutra). Há, sim, diferenças noutros tipos, dado que o uso do gerundivo, em PB, é muito mais frequente/abrangente.

Recomendo a leitura de Lobo, 2006.