Falta vocabulário comum na língua portuguesa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Falta vocabulário comum na língua portuguesa
Por David Borges 2K

texto descritivo da imagemEnquanto Portugal resiste ao Acordo Ortográfico, o Brasil começou a aplicá-lo desde o primeiro dia de 2009 — escreve o jornalista David Borges, num trabalho da sua autoria na secção Mundo em Português do Diário de Notícias de 4 de Janeiro. Com dúvidas a mais sobre muitas palavras com dupla grafia e várias perguntas ainda sem respostas.

 

 

Em tempos que já lá vão, e noutra vaga reformista, ou "acordista", como se dirá agora, Teixeira de Pascoaes chorava o desaparecimento do y, que lhe garantia a alvura e a pureza do lyrio e dava profundidade, escuridão e mistério ao abysmo… «Escrevê-lo com 'i' latino é fechar a boca do abysmo e transformá-lo em superfície banal», dizia, protestando.

Agora, porventura por razões também estéticas mas com uns pozinhos de patriotismo, há brasileiros barricados na defesa do seu querido trema e portugueses irredutíveis na defesa das suas ameaçadas consoantes mudas.

Fará cada um, brasileiro ou português, o que quiser, pelo menos neste tempo de transição, até 2012 no Brasil, até 2014 em Portugal, mas a reforma está já em marcha no maior país da CPLP, o Brasil, onde o acordo ortográfico se inaugurou com o novo ano, e os grandes jornais nacionais, Globo, Estado e Folha de S. Paulo, logo adoptaram as novas regras do acordo, apesar da ausência de uma carta de navegação, prometida para Fevereiro.

E não se tratará de um mapa comum, mas de um VOLP — descodificando: Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Edição brasileira, com previsível distribuição maciça logo que esteja pronto, em Fevereiro. Sai para ser só brasileiro ou, pela inevitável lei do mais forte, para ser o de todos, porque… já está feito?

Dirão portugueses mais sensíveis que a potente locomotiva brasileira já saiu, imperial, da estação da língua, levando-a a reboque, sem esperar pelos que a partilham, por diplomáticos movimentos comuns e por uma marcha acompanhada. Responderão os brasileiros que a vida é assim e o negócio está primeiro. E que se existe algum problema é com Portugal, que resiste. E, se Portugal resiste e não anda, o Brasil não pode ficar parado…

Logo se verá a colocação dos outros parceiros lusófonos, que, por agora, ainda precisam de ir à boleia, alinhados pelo poderio brasileiro, como o escritor angolano José Eduardo Agualusa já deu a entender, ou indiferentes à luta, por ser desnecessária, como afirmou o moçambicano Mia Couto.

Quase 20 anos depois, chega o tempo da verdade para o tão discutido e discutível Acordo Ortográfico. A sua entrada em cena no Brasil ergue, agora com carácter de maior urgência, dúvidas que precisam de ser esclarecidas e exige respostas rápidas para questões até aqui não respondidas, sendo a mais importante a do Vocabulário Comum da Língua Portuguesa. Haverá um dia, desejavelmente mais cedo que tarde, esse acordo central?

O jornalista José Mário Costa dá o «excelente exemplo» de Espanha, que, «para a defesa e promoção do espanhol, de Espanha e de toda a América Latina de expressão oficial castelhana», criou a Fundação para o Espanhol Urgente (Fundéu). Uma forma de actuar bem diferente da que acontece em Portugal.

Fonte

in Diário de Notícias de 4 de Janeiro de 2009

Sobre o autor

David Borges nasceu em Ondjiva, província do Cunene, Angola (1949), onde se iniciou na rádio muito jovem, como locutor, redator, relator desportivo e rádio-ator. Em Portugal, a partir de 1975, trabalhou em várias estacões de rádio, entre as quais a TSF, de que foi um dos seus fundadores e, depois, diretor, e a RDP, onde criou a RDP-África, de que é o seu atual diretor. Ao serviço da TSF, conquistou o mais prestigiado galardão de jornalismo em Portugal, o Prémio Gazeta, com um conjunto de três reportagens em Moçambique, na altura da guerra civil.