Racionalização vs. racionamento - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Racionalização vs. racionamento

Um parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, sobre contenção de custos no Serviço Nacional de Saúde em Portugal (nomeadamente na medicação em doentes terminais), deu azo à confusão entre «racionalização» e «racionamento», aqui abordado pelo jornalista Wilton Fonseca, no jornal “i” de 8-10-2012.

 

Bandeira ao contrário, ausência do povo: o 5 de Outubro ficará na memória colectiva como símbolo de um país que se rendeu à subversão - subversão de valores, subversão linguística. Esta última já havia protagonizado, dias antes, um grande espectáculo demagógico em torno de declarações relacionadas com a Saúde.

O Conselho Nacional de Ética defendeu a «racionalização» dos gastos no sector da Saúde. O escasso conhecimento da língua (por parte do Conselho e da comunicação social) e a demagogia transformaram «racionalização» em«racionamento»; este foi explicado como algo «explícito», «transparente»,«dialogante», «participativo». Subversão total.

Racionalização é a acção ou resultado de racionalizar, o processo pelo qual se analisam os fenómenos à luz da razão. Racionamento não é sinónimo de«racionalmente». É partilha, limitação de determinados bens, ordenada para fazer face a uma situação de escassez. Pode ser «explícito» e  «transparente», mas é indiferente que seja«dialogante» ou «participativo». Se há racionamento, há escassez. O que não é bom.

A má utilização dos dois termos subverteu uma discussão que poderia ter sido útil e oportuna. Virou a bandeira ao contrário, como no 5 de Outubro.

Fonte

in jornal “i” de 8 de outubro de 2012, na coluna do autor “Ponto do i”, sob o título original “A Bandeira”. Manteve-se a norma ortográfica de 1945, seguida pelo jornal.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.