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Fui (do verbo ser) e fui (do verbo ir) Porquê a mesma forma?
Fui (do verbo ser) e fui (do verbo ir)
Porquê a mesma forma?

O verbo ser e o verbo ir têm formas iguais no pretérito perfeito do indicativo e noutros tempos verbais (mais-que-perfeito do indicativo, bem como no imperfeito e no futuro do conjuntivo). Como se explica que verbos tão diferentes na significação venham a identificar-se morfologicamente? Gonçalo Neves dá conta da pesquisa que fez sobre o tema, em resposta a uma solicitação* do filósofo e professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Fernando Belo.

 

 

Os romanos eram um povo prático e dinâmico, e o seu império espalhou-se graças a campanhas militares cujo êxito dependia não só da perícia bélica e do armamento avançado dos seus exércitos, como também da sua capacidade de movimentação. Não é de estranhar, pois, que em latim abundassem os verbos que exprimiam o conceito de «ir» ou «caminhar». Existiam pelo menos os seguintes, cada um deles com os seus matizes próprios: ire, vadĕre, gradi, incedĕre, meare, migrare.

Para o tema em questão, interessam-nos sobretudo os dois primeiros, sobre os quais H. Brunswich, no seu Diccionario de synonymos latinos (A. J. da Silva Teixeira, 1893, p. 179), aduz a seguinte explicação, aqui transcrita na ortografia da época: «Ire, ir, na accepção mais geral, como em opposição a estar parado, diz-se das pessoas e das coisas. [...] Vadere, caminhar depressa ou durante muito tempo com passo seguro: é mais do que um passeio e menos do que uma jornada, e por isso, faz suppôr que ha obstaculos a vencer. [...] o militar que vae ao combate, vadit».

O verbo ire conjugava-se da seguinte forma no presente do indicativo: , īs, it, īmus, ītis, eunt. Todas estas formas desapareceram na passagem para o português, exceto īmus, que deu origem a imos, forma corrente no tempo de Camões (aparece três vezes em Os Lusíadas: I, 50; II, 80; VI, 72), mas hoje meramente dialetal (embora seja usual na Galiza), e ītis, que evoluiu para ides, forma que persiste em português moderno. As restantes, demasiado breves e sem apoio de consoante intervocálica, tinham poucas hipóteses de sobrevivência na linguagem falada, acabando por ser substituídas pelas respetivas formas de vadere, verbo, aliás, de frequência crescente no latim pós-clássico. Assim, vādō, vādis, vādit, vādimus, vāditis, vādunt deram origem, respetivamente, a vou, vais, vai, vamos, vades (dialetal, mas corrente na Galiza), vão.

No que respeita ao pretérito perfeito de ire, as formas clássicas (/īvī, īstī/īvistī, iit/īvit, iimus, īstis, iērunt/iēre) também tinham poucas hipóteses de sobrevivência na linguagem falada, pelos motivos apontados, e, de facto, nenhuma delas passou para português nem para castelhano. Neste caso, porém, não puderam ser substituídas pelas respetivas formas de vadere, pois este verbo era defetivo em latim clássico, e o respetivo tema do perfeito só surgiu em latim tardio. Por isso mesmo, o povo recorreu a esse («ser»), verbo cujos temas do presente e do perfeito provêm de duas raízes indo-europeias distintas. Enquanto o tema do presente procede de uma raiz que denota essência ou existência, o tema do perfeito teve origem numa raiz que indica um processo dinâmico. Não é sem razão que F. Martin, na sua obra Les mots latins, groupés par familles étymologiques (Hachette, 1976, p. 92), traduz etimologicamente fuī por je suis devenu, ou seja, «tornei-me». Esta forma, aliás, está etimologicamente relacionada com o verbo fierī («fazer-se», «tornar-se»), que figura na conhecida expressão bíblica fiat lux («faça-se luz»), e com o grego φῠ́ω (phúō), «brotar», «fazer nascer», «produzir», «nascer», do qual provém o substantivo φύσις (phúsis) referido pelo consulente, que significa «formação», «produção», «natureza», «maneira de ser», «disposição natural», força produtora», «ser animado».

Aliás, bem vistas as coisas, este dinamismo do perfeito de esse mantém-se em português, pois quando dizemos, por exemplo, «O general Ramalho Eanes foi Presidente da República», tal afirmação, de forma subtil, diz respeito a um processo de transformação: o general, a dada altura da sua vida, era Presidente da República, mas, entretanto, deixou de o ser, ou seja, em determinado momento, transformou-se em “não-presidente”.

A utilização do perfeito de esse para suprir o perfeito de ire teve origem no chamado latim vulgar, na linguagem falada, mas deixou rasto, por exemplo, na escrita de Cícero, que numa carta a Ático (10, 16, 1) disse o seguinte:

Commodum ad te dederam litteras, de pluribus rebus, cum ad me bene mane, Dionysius fuit («Tinha acabado de te escrever uma carta sobre vários assuntos, quando Dionísio chegou a minha casa de manhã cedo»).

Aliás, F. R. dos Santos Saraiva, no seu Novissimo Diccionario Latino-Portuguez (Garnier, 9.ª edição, 192, p. 1156), dá ao verbo esse onze aceções, a terceira das quais é precisamente «ir, chegar, vir».

Este alargamento do campo semântico de esse também foi favorecido pelo facto de este verbo, cuja aceção primordial era «ser» e «existir», significar igualmente «estar», tanto no presente como no passado, e de a preposição ad (da qual deriva a nossa preposição a), além de indicar primordialmente movimento, significar também «junto de», «em casa de», ou seja, a mesma preposição indicava tanto o movimento como o resultado do mesmo. Assim, uma expressão como fuit ad me, que significava originalmente «esteve em minha casa», passou a significar também, com a erosão das formas do perfeito de ire, «foi a minha casa».

Uma fonte preciosa para estudar a evolução do latim falado é a obra usualmente conhecida como Itinerarium Egeriae («A viagem de Egéria») ou Peregrinatio ad loca sancta («Peregrinação aos lugares santos»), entre outras variantes, provavelmente escrita em finais do século IV. Nesta obra, encontram-se, só para dar alguns exemplos, as seguintes frases em que o perfeito de esse funciona exatamente como o perfeito do verbo ir em português:

Moyses fuit in montem (V, 3), «Moisés foi para a montanha».

Ibi ergo cum venissem, [...] statim fui ad ecclesiam (XX, 2), «Assim que lá cheguei, fui direitinha à igreja».

Ubi cum pervenissem, fui ad episcopum (XXIII, 1), «Quando lá cheguei, fui ter com o bispo».

A talho de foice, refira-se um passo bíblico (Lucas 24, 22) que a A Bíblia dos Capuchinhos, dada à estampa pela Difusora Bíblica em 2003, traduz da seguinte forma: «algumas mulheres do nosso grupo [...] foram ao sepulcro de madrugada». No original grego, a forma verbal foram corresponde a γενόμεναι (genómenai), particípio médio do segundo aoristo de γίνομαι (gínomai), verbo que apresenta inúmeras aceções, mas cujo significado primordial é precisamente «tornar-se». Ora a Vulgata apresenta a seguinte versão: et mulieres quaedam ex nostris [...] ante lucem fuerunt ad monumentum. Ou seja, γενόμεναι é traduzido justamente por fuerunt, que exprime uma mudança de estado, a qual, de acordo com o contexto, se refere claramente a uma deslocação, a um movimento.

Resumindo, o supletismo do verbo ir em português e em castelhano é um fenómeno que entronca no latim vulgar resultando, por um lado, da debilidade de certas formas do verbo latino ire e da defetividade do verbo vadere e, por outro lado, da própria natureza do tema do pretérito do verbo esse, possivelmente aliada à ambivalência da preposição ad.

 

* «A minha questão é esta: como é que se explica que estes dois verbos, em português como em [...] castelhano, pelo menos (em italiano não existe ire), tenham esta forma comum em pretéritos e conjuntivos, sendo que ela só existe em latim em esse, e não em ire? O meu interesse é de filósofo: como compreender que um verbo que indica essência e substância tenha tido uma influência sobre um outro que indica movimento? Fascina-me que uma forma verbal correlacione ser e movimento (em grego, o ser – phusis – é sobretudo o dos vivos, que se movem, crescem, etc). É possível explicar o fenómeno linguístico?»

N. E. – Sobre a suposta inexistência de ire em italiano, talvez seja essa a impressão que se colhe dos dados da língua padrão, mas, segundo informação do dicionário italiano Treccani (s. v. ire), ire subsiste regionalmente como verbo defetivo que apenas ocorre no infinitivo (ire), no particípio passado (ito) – e, portanto, em tempos compostos – e na 2.ª pessoa do plural do presente do indicativo e no imperativo (ite). No uso poético e em fases pretéritas desta língua também se encontram outras formas (idem, ibidem). Agradecimentos ao consultor Luciano Eduardo de Oliveira pela chamada de atenção para este aspeto.

Sobre o autor

Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.