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Gonçalo Neves
Gonçalo Neves
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Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.

 
Textos publicados pelo autor

Os romanos lançavam mão de vários vocábulos para designar a terra ou o solo: tellus, terra, humus, solum. O primeiro chegou até nós apenas por via erudita, através do adjetivo telúrico, enquanto o terceiro deu origem a húmus (com a variante humo), termo de significado mais restrito do que o seu étimo.

De humus provém o adjetivo humĭlis, que designava, em latim, tudo o que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer objeto. Por exemplo, lê-se turris humilis («torre baixa») em César e domus humilis («casa térrea») em Horácio, enquanto Cícero chamava ea quae sunt humiliora às plantas de baixo porte. Virgílio, por seu lado, na Eneida (IV, 255), referindo-se a Mercúrio e comparando-o a uma ave (avi similis), diz que «voa baixo» (humilis volat) «a rasar o mar» (iuxta aequora).

Este vocábulo, aliás, continua a ser utilizado em latim botânico, na descrição taxonómica das espécies, como atesta William Stearn, na sua obra

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O filósofo Fernando Belo, professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fez-nos chegar as seguintes questões acerca dos verbos ser e ir:

«Como é que se explica que estes dois verbos, em português como [...] em castelhano, pelo menos (em italiano não existe ire), tenham esta forma comum em pretéritos e conjuntivos, sendo que ela só existe em latim em esse, e não em ire? O meu interesse é de filósofo: como compreender que um verbo que indica essência e substância tenha tido uma influência sobre um outro que indica movimento? Fascina-me que uma forma verbal correlacione ser e movimento (em grego, o ser – phusis – é sobretudo o dos vivos, que se movem, crescem, etc). É possível explicar o fenómeno linguístico?»

Em resposta, o latinista e tradutor Gonçalo Neves lançou-se numa uma pesquisa etimológica donde resultaram os apontamentos que se seguem sobre este curioso caso histórico de parcial convergência morfológica de dois verbos semanticamente diferentes.

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= «de qualidade excelente»

Acerca da expressão XPTO (ver respostas aqui e aqui), uma  consulente de Lisboa, a tradutora Diana Marques, diz que ficou «[...] espantada e divertida por saber que tem origem nas letras gregas que compõem a palavra Cristo», mas considera que há uma questão por desvendar: «No entanto, continuo intrigada e quero perceber como pode ter derivado a palavra Cristo até vir a significar "algo de qualidade excelente". A correlação não me parece óbvia e talvez tenha uma qualquer anedota por detrás [...].»

Gonçalo Neves quis investigar a fundo as origens deste uso de XPTO para descobrir que, afinal, o muito que se diz não tem grande fundamento.

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O consulente Paulo de Sousa (Cascais, Portugal) perguntou:

«Uma das muitas aceções do verbo “compreender” é a de “abranger”. Como tal, poderá o adjetivo “compreensivo” encerrar também o sentido de “abrangente”?»

Como se sabe, apesar de a compreensivo poder ser atribuído o significado de «que compreende ou pode compreender, abranger ou conter», acontece que não se recomenda o uso do vocábulo em tal aceção.

Traçando a etimologia deste adjetivo e comentando a interferência do inglês comprehensiveGonçalo Neves explica com pormenor as origens e o significado de compreensivo.

O termo latino qua, na sua origem, é o feminino singular do pronome relativo qui, quae, quod («que, o qual, a qual») no caso ablativo. Ocorre, por exemplo, na conhecida locução sine qua non, que já foi objeto desta resposta no Ciberdúvidas.

Em latim clássico, qua era empregado também como advérbio, com o significado de «por onde», função cuja origem o filólogo italiano Egidio Forcellini (1688-1768), no seu Lexicon totius latinitatis, mais concretamente no terceiro volume (L-Q), explica do seguinte modo: est ellipsis pro ‘qua via’ (p. 984). Ou seja, qua seria uma elipse da expressão qua via, que significa «por que caminho». Refira-se, a talho de foice, que este advérbio complementa a forma quo (originalmente, o ablativo masculino do mesmo pronome), de que se serviam os romanos para exprimir a ideia de direção («aonde», «para onde»), como na conhecida expressão quo vadis? («aonde vais?», «para onde vais?»).

Ainda em latim clássico, o advérbio qua adquiriu, entre outros, o matiz de «como, por que meio, de que modo». Terá sido a partir desta aceção que o termo em questão, certamente em latim pós-clássico, e provavelmente pós-renascentista, terá passado a funcionar como preposição, ass...