Gonçalo Neves - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Gonçalo Neves
Gonçalo Neves
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Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.

 
Textos publicados pelo autor

Apresento a lista do consulente com os meus comentários. A única dificuldade, no caso presente, reside no facto de os nomes latinos não se encontrarem dicionarizados, pelo que não é possível verificar a quantidade das vogais, um elemento essencial para definir a correta acentuação em português. Por isso, nos comentários da secção 2, falo na probabilidade de esta ou aquela forma ser a mais correta.

1. Concordo com os seguintes nomes aportuguesados sugeridos na lista (destacados a negrito; a forma latina está em itálico, seguida da escandinava entre parênteses e também em itálico):

Adelus (Adils/Eadgils) – Adelo.

Agnus/Agnius (Agne) – Agno ou Ágnio.

Alaricus e Ericus (Alrekr e Eiríkr) – Alarico e Érico.

Amundus (Amund) – Amundo.

Anundus (Anund) – Anundo.

Aunus (Aun) – Auno.

Biornus (Bjørn/Bjǫrn/Björn) – Biorno.

Domalder (Domalde/Dómalda/Domalde/Dómaldi) – Domaldro

Fliolmus/Fiolni (Fiǫlnir/Fjǫlnir/Fjölner) – Fliolmo.

Gudrodus<...

O termo Γοργόνειον (Gorgóneion), na Antiga Grécia, referia-se a um amuleto apotropaico que representava a cabeça da Medusa, uma das três Górgonas.

Não encontrei nenhum aportuguesamento registado em dicionários ou noutras obras de referência. Por exemplo, António Freire (19191997), na sua obra Helenismos Portugueses (Edições APPACDM Distrital de Braga, 2.ª edição, 1996, p. 36), ao tratar do aportuguesamento de Γοργόνες (Gorgónes), termo para o qual admite dupla forma na nossa língua (Górgones ou Górgonas), não faz qualquer menção a Γοργόνειον.

Por isso mesmo, resta-nos perscrutar o que o douto helenista propugna para termos gregos análogos. Por exemplo, sobre Ποσειδῶν (Poseidōn) comenta que «O aportuguesamento deste mitónimo tem corrido a mais desvairada fortuna na lexicografia nacional» (ibidem, p. 123), após o que enumera as formas que encontrou dicionarizadas: “Poseidon” (variante que considera «bizarra»), “Poséidon”, “Posídon” e “Posidão”. De todas est...

A colocação dos pronomes átonos é uma questão intricada e multímoda, que tem feito correr rios de tinta, de tal forma que o filólogo, escritor e lexicógrafo português Cândido de Figueiredo (1846–1925), depois de acesa polémica, a este respeito, com o escritor e jornalista brasileiro Paulino de Brito (1858–1919), deu à estampa uma obra de 400 páginas acerca do tema, sob o título O problema da colocação de pronomes (suplemento às gramáticas portuguesas), a qual conheceu oito edições entre 1909 e 1952.

 O assunto, aparentemente inesgotável, continua a dar azo a inúmeros estudos de ambos os lados do Atlântico, como é o caso desta dissertação de 108 páginas, da autoria de Líbia Mara S. Saraiva, apresentada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais em 2008.

 Também no Ciberdúvidas têm sido recorrentes as perguntas atinentes a esta matéria, sendo-me impossível citar aqui todas as respostas, pelo que me limito a trazer à colação as que me parecem mais pertinentes, como

Quando se referiam ao dia imediatamente anterior àquele em que estavam, os romanos serviam-se da expressão hesterno die ou, mais frequentemente, do advérbio heri. Este último vocábulo pode considerar-se um verdadeiro “caso de sucesso”, pois deu origem, entre outros, a ayer em castelhano, ahir em catalão, ayeri em asturiano (todos eles através da locução ad heri), ieri em italiano e em romeno, ièr em occitano, hier em francês (do qual provém hieraŭ em esperanto) e eire em galego-português (com a variante eiri, que encontramos nos versos iniciais desta cantiga de escárnio e maldizer, cuja versão integral se pode ler aqui): 

«Dom Estêvam, eu eiri comi

em cas del-rei, nunca vistes melhor,» 

Estranhamente, heri não deixou qualquer vestígio em português moderno, tendo eire e eiri sido substituídos por ontem, vocábulo que só encontra paralelo em galego e mirandês, línguas em que o advérbio assume a forma onte. Terá a referida substituição ficado a dever-se à semelhança com eira, termo antiquíssimo na nossa língua (1018) e outrora muito frequente? É difícil descortinar… 

Apesar da importância do Direito na sociedade romana, não existia, em latim, clássico, nenhum verbo correspondente ao nosso legislar. Para exprimir tal conceito, serviam-se os romanos de várias expressões: leges instituere, scribere, condere, componere.

Quanto aos homens que faziam as leis, ou cuja opinião ou parecer podia constituir força de lei, recebiam estes várias designações, consoante a época e o matiz pretendido: legum auctores («autores das leis»), legum scriptores («redatores das leis»), iuris auctores («autores do direito»), legum latores («estabelecedores das leis»), legum conditores («fundadores das leis»). O termo legum («das leis») é o genitivo plural do substantivo lex («lei»), cujo genitivo singular é legis («da lei»). Em vez de legum lator («estabelecedor das leis»), quem fazia as leis também se designava legis lator, igualmente escrito legislator («estabelecedor da lei»), termo que deu origem a legislador em língua portuguesa. Os poetas serviam-se outrossim do adjetivo legifer, que deu origem ao cultismo legífero em português. Virgílio, por exemplo, chamou legifera Ceres (En. 4, 58) à deusa Ceres.

No que diz respeito à legislação, na época clássica, os romanos exprimiam o conceito simplesmente por leges («leis») ou corpus iuris («corpo do direito»), mas mais tarde, na Vulgata, depara-se-nos o termo legislatio, que deu origem a