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Gonçalo Neves
Gonçalo Neves
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Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.

 
Textos publicados pelo autor

A colocação dos pronomes átonos é uma questão intricada e multímoda, que tem feito correr rios de tinta, de tal forma que o filólogo, escritor e lexicógrafo português Cândido de Figueiredo (1846–1925), depois de acesa polémica, a este respeito, com o escritor e jornalista brasileiro Paulino de Brito (1858–1919), deu à estampa uma obra de 400 páginas acerca do tema, sob o título O problema da colocação de pronomes (suplemento às gramáticas portuguesas), a qual conheceu oito edições entre 1909 e 1952.

 O assunto, aparentemente inesgotável, continua a dar azo a inúmeros estudos de ambos os lados do Atlântico, como é o caso desta dissertação de 108 páginas, da autoria de Líbia Mara S. Saraiva, apresentada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais em 2008.

 Também no Ciberdúvidas têm sido recorrentes as perguntas atinentes a esta matéria, sendo-me impossível citar aqui todas as respostas, pelo que me limito a trazer à colação as que me parecem mais pertinentes, como

Quando se referiam ao dia imediatamente anterior àquele em que estavam, os romanos serviam-se da expressão hesterno die ou, mais frequentemente, do advérbio heri. Este último vocábulo pode considerar-se um verdadeiro “caso de sucesso”, pois deu origem, entre outros, a ayer em castelhano, ahir em catalão, ayeri em asturiano (todos eles através da locução ad heri), ieri em italiano e em romeno, ièr em occitano, hier em francês (do qual provém hieraŭ em esperanto) e eire em galego-português (com a variante eiri, que encontramos nos versos iniciais desta cantiga de escárnio e maldizer, cuja versão integral se pode ler aqui): 

«Dom Estêvam, eu eiri comi

em cas del-rei, nunca vistes melhor,» 

Estranhamente, heri não deixou qualquer vestígio em português moderno, tendo eire e eiri sido substituídos por ontem, vocábulo que só encontra paralelo em galego e mirandês, línguas em que o advérbio assume a forma onte. Terá a referida substituição ficado a dever-se à semelhança com eira, termo antiquíssimo na nossa língua (1018) e outrora muito frequente? É difícil descortinar… 

Quando à origem ...

Apesar da importância do Direito na sociedade romana, não existia, em latim, clássico, nenhum verbo correspondente ao nosso legislar. Para exprimir tal conceito, serviam-se os romanos de várias expressões: leges instituere, scribere, condere, componere.

Quanto aos homens que faziam as leis, ou cuja opinião ou parecer podia constituir força de lei, recebiam estes várias designações, consoante a época e o matiz pretendido: legum auctores («autores das leis»), legum scriptores («redatores das leis»), iuris auctores («autores do direito»), legum latores («estabelecedores das leis»), legum conditores («fundadores das leis»). O termo legum («das leis») é o genitivo plural do substantivo lex («lei»), cujo genitivo singular é legis («da lei»). Em vez de legum lator («estabelecedor das leis»), quem fazia as leis também se designava legis lator, igualmente escrito legislator («estabelecedor da lei»), termo que deu origem a legislador em língua portuguesa. Os poetas serviam-se outrossim do adjetivo legifer, que deu origem ao cultismo legífero em português. Virgílio, por exemplo, chamou legifera Ceres (En. 4, 58) à deusa Ceres.

No que diz respeito à legislação, na época clássica, os romanos exprimiam o conceito simplesmente por leges («leis») ou corpus iuris («corpo do direito»), mas mais tarde, na Vulgata, depara-se-nos o termo legislatio, que deu origem a

Os romanos lançavam mão de vários vocábulos para designar a terra ou o solo: tellus, terra, humus, solum. O primeiro chegou até nós apenas por via erudita, através do adjetivo telúrico, enquanto o terceiro deu origem a húmus (com a variante humo), termo de significado mais restrito do que o seu étimo.

De humus provém o adjetivo humĭlis, que designava, em latim, tudo o que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer objeto. Por exemplo, lê-se turris humilis («torre baixa») em César e domus humilis («casa térrea») em Horácio, enquanto Cícero chamava ea quae sunt humiliora às plantas de baixo porte. Virgílio, por seu lado, na Eneida (IV, 255), referindo-se a Mercúrio e comparando-o a uma ave (avi similis), diz que «voa baixo» (humilis volat) «a rasar o mar» (iuxta aequora).

Este vocábulo, aliás, continua a ser utilizado em latim botânico, na descrição taxonómica das espécies, como atesta William Stearn, na sua obra

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O filósofo Fernando Belo, professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fez-nos chegar as seguintes questões acerca dos verbos ser e ir:

«Como é que se explica que estes dois verbos, em português como [...] em castelhano, pelo menos (em italiano não existe ire), tenham esta forma comum em pretéritos e conjuntivos, sendo que ela só existe em latim em esse, e não em ire? O meu interesse é de filósofo: como compreender que um verbo que indica essência e substância tenha tido uma influência sobre um outro que indica movimento? Fascina-me que uma forma verbal correlacione ser e movimento (em grego, o ser – phusis – é sobretudo o dos vivos, que se movem, crescem, etc). É possível explicar o fenómeno linguístico?»

Em resposta, o latinista e tradutor Gonçalo Neves lançou-se numa uma pesquisa etimológica donde resultaram os apontamentos que se seguem sobre este curioso caso histórico de parcial convergência morfológica de dois verbos semanticamente diferentes.