Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Afinal quantos zeros tem um bilião? 9 ou 12?
Afinal quantos zeros tem um bilião? 9 ou 12?

«(...) Na generalidade dos países europeus, adoptou-se uma escala para nomear os números grandes — a escala longa. Enquanto nos EUA (em vários países de língua inglesa, e noutros, como o Brasil), adoptou-se uma escala diferente — a curta. Até ao milhão a terminologia é a mesma, depois é que começam as diferenças. Na escala curta, o termo é multiplicado mil vezes pelo anterior; na longa, é multiplicado por um milhão. (...)»

 

Sabe quanto é um bilião? Apesar de a matemática ser uma ciência exacta, depende do país onde estiver. Se for europeu, o mais provável é que um bilião seja um milhão de milhões, 1 000 000 000 000 (doze zeros). O que para um americano é equivalente a um trilião. Mas se viajar até aos Estados Unidos, aí já tem de contar com um número com nove zeros, o que para nós é um milhar de milhões.

«Os números são os mesmos, a diferença está nos nomes que lhes damos», diz Nuno Crato [na foto ao lado], presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.

Na generalidade dos países europeus, adoptou-se uma escala para nomear os números grandes — a escala longa. Enquanto nos EUA (em vários países de língua inglesa, e noutros, como o Brasil), adoptou-se uma escala diferente — a curta. Até ao milhão a terminologia é a mesma, depois é que começam as diferenças. Na escala curta, o termo é multiplicado mil vezes pelo anterior; na longa, é multiplicado por um milhão.

Apesar de sublinhar que nenhuma das escalas é superior, Crato admite que a escala curta, dos EUA, seja fácil e mais prática para o conhecimento humano.

A diferença entre o bilião "europeu" e o bilião "americano" tem mexido muitos zeros. É por isso que Daniel Amaral lançou, na sua crónica no Expresso, dia 22 de Dezembro, um repto para uniformizar a linguagem. O economista explica que no mundo financeiro é muita a confusão que se faz entre os dois biliões. Mesmo com escalas diferentes, Daniel Amaral afirma que o bilião utilizado na economia é o "americano". A opinião é partilhada por João Duque, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, que diz que a confusão entre biliões é um problema que se põe na informação financeira. Para Silva Lopes, presidente do Montepio Geral, as confusões entre o bilião "americano" e o "europeu" terminavam com a uniformização da linguagem. «Nem que tivesse de se inventar outra palavra.»

O banqueiro adverte que na economia «um bilião com 9 zeros é um número importante, enquanto o bilião com 12 zeros é pouco utilizado». E que mesmo que esteja a discutir números com outro europeu, o bilião "americano" é o assumido. «Só com os franceses é que dizemos o milliard, porque eles arranjaram uma palavra própria.»

Se algum dia se avançar para uma alteração da palavra, o português não será um entrave. «A língua é uma unidade mutável e a tendência é para adoptar o bilião "americano", até pela própria influência da cultura norte-americana», diz o professor de Português Pinto Amaral.

No entanto, até agora ainda não surgiram propostas de adopção da escala norte-americana. A garantia vem de Eduarda Filipe, do Laboratório de Meteorologia do Instituto Português da Qualidade1. Desde 1948 que o sistema se mantém. Tudo porque a 9.ª Conferência de Pesos e Medidas recomendou a escala longa para os países europeus.

O professor Guilherme de Almeida, autor do livro Sistema Internacional de Unidades, Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, alerta que uma uniformização da linguagem não pode partir de uma iniciativa nacional. «Se formos os únicos a adoptarmos a escala curta, então afastamo-nos da Europa.» E diz que este problema não se põe no mundo científico. «Na ciência damos primazia à numeração, em vez do substantivo.»

Já para Carlos Fiolhais, professor de Física na Universidade de Coimbra, existem outras questões mais urgentes para padronizar. «Nos biliões, o importante é que quando se faça a tradução se tenha em conta a escala.»

1 N. E.: A autora quis dizer «Laboratório de Metrologia do Instituto Português da Qualidade».

 

[Sobre este mesmo tema, cf. Textos Relacionado, ao lado.]

Fonte

In semanário Expresso de 19 de Janeiro de 2008 (ver vídeo).

Sobre a autora

Carolina Reis (Lisboa, 1983), jornalista do Expresso.