O que mudou na acentuação, pós-AO de 1990 (II) - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O que mudou na acentuação, pós-AO de 1990 (II)
O que mudou na acentuação, pós-AO de 1990 (II)
Dissílabos que já não têm acento gráfico

As Bases IXX do novo Acordo Ortográfico regulam a nova ortografia no que diz respeito à acentuação.

Deste modo, as palavras paroxítonas ou graves com vogal tónica aberta ou fechada, que são homógrafas de palavras proclíticas (que se submetem ao acento tónico da palavra seguinte), deixam de ser acentuadas. É o caso do verbo parar (3.ª pessoa do singular do presente do indicativo e 2.ª pessoa do singular do imperativo), cuja vogal da primeira sílaba é aberta («O sinaleiro para o trânsito.»/ «Para, escuta e olha!»), e da preposição para, cuja vogal da primeira sílaba é fechada («Ele foi para casa»).

A mesma regra aplica-se à palavra pela, que pode dizer respeito ao verbo pelar com e aberto (3.ª pessoa do singular do presente do indicativo e 2.ª pessoa do singular do imperativo): «A cozinheira pela os tomates para o refogado.» /«Pela as amêndoas para fazer o bolo.» Deste modo, apenas a pronúncia a distingue da contração da preposição por com o artigo definido a ou com o pronome demonstrativo a. Neste caso o e é fechado: «Optou pela Matemática.» / «Podia ter dado outra resposta; pela que deu não revelou os conhecimentos necessários.»

Além disso, é igualmente a pronúncia que distingue a palavra pelo. Pode ser pronunciada com /e/ aberto, sendo uma forma do verbo pelar (1.ª pessoa do singular do presente do indicativo). Exemplo – «Eu pelo das costas quando apanho um escaldão.» Se o e for fechado, trata-se de um nome («O pelo do meu cão é preto.») ou da contração da preposição por com o artigo definido o ou o pronome demonstrativo o («Ele seguiu pelo caminho mais fácil.»/ «Tenho um sobrinho pelo qual me sacrifiquei.»).

O nome pera também perdeu o acento, porque ser homógrafa do arcaísmo pera, que deu lugar a para («Vou comer uma pera.»/ «E pera onde é a viagem» (Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente). Na mesma situação, encontra-se o nome polo (com o aberto) – «Comprei um polo ao meu filho.» – e a contração arcaica da preposição por com o artigo definido ou o pronome o, pronunciando-se com o fechado, – «E a senhora Florença polo meu entrará lá» (Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente).

As palavras graves ou paroxítonas coa e pero perdem igualmente o acento circunflexo.

Urge, no entanto, salientar que a forma verbal pôde continua a levar o acento circunflexo no pretérito perfeito do indicativo, distinguindo-se, assim, do presente do indicativo: «Ontem, ele não pôde ir a minha casa, mas hoje já pode

 

Cf. Acentuação atual – o que não mudou? +  Afecta e pára, ante-AO → afeta e para, pós-AO. Porquê? Escreve-se Pára-brisas ou Para-brisas? 

 

Sobre a autora

Professora de Português e Francês no ensino secundário, na Escola Secundária Inês de Castro (Vila Nova de Gaia). Licenciada em 1992 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem mais de trinta livros (escolares, romances e infantis) publicados, entre os quais se contam Português atual, Manual do Bom Português Atual, Língua Portuguesa e Matemática, bem como edições escolares do Auto da Barca do Inferno e de Os Lusíadas. Formadora na área de Língua Portuguesa, em centros de formação para professores, em colégios privados, na Universidade Católica, na  Sonae, no Jornal de Notícias, no Porto Canal; a convite do Instituto Politécnico de Macau, em 2014, deu também formação a professores universitários chineses. Desde 2012, mantém uma crónica semanal no Jornal de Notícias, intitulada "Português Atual". Foi responsável por uma rubrica diária sobre língua portuguesa no Porto Canal. Elaborou um contributo para o grupo de trabalho parlamentar para avaliação do impacto da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Em 2018, foi-lhe atribuída a medalha de mérito cultural pela Câmara Municipal de Gaia.