Quishing em 100% Português, o AO 1990 nos jornais de Portugal, a crise dos dicionários, aforismo com vírgula e a palavra que
1. Com o novo ano, o Ciberdúvidas retomou a sua atividade regular, incluindo o passatempo 100% Português, que é proposto no Facebook. O anglicismo em discussão foi quishing, termo que se refere ao roubo de dados pessoais por meio de código QR. Como se podia esperar, não existe por enquanto em português vocábulo capaz de captar de forma sintética toda a situação que a palavra inglesa evoca, pelo que a situação continua a ser a descrita num apontamento de 24/10/2024 por Sara Mourato, que assinalava a forma ciberiscagem «termo que tem algum uso, pelo menos, em documentos em português produzidos no contexto da União Europeia», a par de outras soluções, mais analíticas, como «falsificação de interface» e «mistificação de interface», conforme propõe a APDSI (Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação).
2. Em Portugal, o Acordo Ortográfico de 1990 (AO 1990) tornou-se definitivamente oficial em maio de 2015, mas na comunicação social há , pelo menos, uma publicação de referência que o rejeita, o jornal Público, cujos conteúdos continuam a seguir maioritariamente a norma de 1945. Não obstante, o novo provedor do jornal, João Garcia critica agora esta opção em artigo de 04/01/2026 ("Um provedor infiltrado na aldeia de Astérix"), considerando que já é tempo de o Público alinhar com todas as outras publicações, que seguem o AO 1990; e argumenta: «[...] um jornal de grande difusão não pode ser escrito de forma que seria censurada, por excesso de erros, numa prova de Português do 4.º ano de escolaridade. Os jornais são para serem bem escritos, são instrumentos de aprendizagem e não podem ser fonte de confusão.» Como seria de esperar, o jornalista Nuno Pacheco, acérrimo adversário do referido normativo, por razões repetidamente expressas em crónicas incluídas ao longo dos anos no jornal em causa, manifesta-se contra ("Ainda a ortografia, ou uma lança romana na aldeia gaulesa, 08/01/2026) e, sobre o tema, remata mais um texto de modo irredutível: «A proposta do novo provedor equivale a tomar um remédio tóxico só para cumprir a receita.»
3. «A tarefa de usar um dicionário já há muito que deixou de ser hábito até daqueles que prezam o bem falar e escrever» –lê-se no artigo que a consultora Inês Gama dedica ao que se pode chamar hoje a «crise dos dicionários», ou seja, sobre sinais de o hábito de consultar o dicionário poder vir a cessar, com base numa leitura crítica do artigo “Is the dicionary done for it?”, publicado na revista norte-americana The New Yorker.
Outros artigos que foram disponibilizados em dias recentes: "A Carta e o Silêncio de Rui Paiva"; "Pode ou pôde?"; "Instância ou estância?".
4. Para dar a uma ideia o caráter de verdade universal, constroem-se enunciados de diferentes tipos, com diversas denominações, desde provérbio ou ditado, quando são de origem popular e formulação metafórica, a aforismo, termo este aplicado frequentemente a uma frase de conteúdo mais genérico. No Consultório, pergunta-se se, num aforismo como «Livros que não se leem, é como se não existissem», a vírgula está correta. Não estará ela a separar o sujeito do predicado? Outras questões que também fazem parte das atualizações dos últimos dias: o apelido Munhoz; a grafia de órfão; o uso preposicional de exceto; os complementos do nome preconceito e dos verbos celebrar e falar; a grafia de nomes de marcas comerciais; e a construção consecutiva «de tão saborosa».
5. Temas em foco nas rubricas em vídeo do Ciberdúvidas: em "Ciberdúvidas Responde", os nomes próprios Melchior e Baltasar, a propósito do Dia de Reis, que encerra a quadra do Natal; e em "O Ciberdúvidas Vai às Escolas" (50.º episódio, com a participação da Escola EB 2,3 e Secundária Engenheiro Dionísio A. Cunha, em Canas de Senhorim), distinguem-se as diferentes palavras que assumem a forma que, com diferentes funções gramaticais.
6. Acerca dos programas Língua de Todos (RDP África) e Páginas de Português (Antena 2), que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública de Portugal, toda a informação está disponível nas Notícias e na página principal.
