Ambas as construções são corretas e plenamente aceitáveis no português contemporâneo.
Observe-se primeiramente que a frase «De tão saborosa [que estava a sopa], não conseguia parar de comer.», contenha ela ou não a sequência «que estava a sopa», configura uma construção consecutiva especial, introduzida pela preposição de, como ocorre nos seguintes exemplos1.
(1) Não nos podíamos mexer de tão derreados que estávamos.
(2) Em frente do alpendre, parou um grupo de mulheres cujos vultos, de tão envoltos nos xailes, não reconheceu.
Em (1) e (2), intensifica-se uma determinada característica («derreados», «envoltos») que culmina numa consequência («não nos podíamos mexer», «não reconheceu [os vultos]»). O mesmo se verifica, portanto, em «de tão saborosa [que estava a sopa], não conseguia parar de comer»2.
Em segundo lugar, importa assinalar que esta construção consecutiva introduzida pela preposição de integra uma estrutura frásica igual ou homóloga de frases exclamativas parciais como «Tão derreados que estávamos!», «Tão envoltos que estavam nos xailes!» ou «Tão saborosa que estava a sopa!». Estas frases exclamativas podem ter formulações mais breves: «Tão derreados!», «Tão envoltos!», «Tão saborosa». As formulações mais longas apresentam o complementador que («... que estávamos/estavam nos xailes/estava a sopa») e designam-se exclamativas parciais não elípticas, enquanto as formulações mais breves configuram as chamadas frases exclamativas parciais elípticas, nas quais se omite a frase introduzida pelo complementador que3.
Tomando em conta este comportamento das exclamativas parciais, sugere-se aqui que, na construção consecutiva introduzida por de, na sequência que expressa uma intensificação, também podem ocorrer os dois tipos de estrutura, com a mesma correção: por um lado, uma construção elíptica («De tão saborosa...») e, por outro, uma construção não elíptica («De tão saborosa que estava a sopa...»).
1 Na descrição desta construção consecutiva, segue-se Maria Manuela Moreno de Oliveira, Processos de Intensificação no Português Contemporâneo, Publicações do Centro de Estudos Filológicos, 1962, p. 224. Os exemplos 1 e 2 provêm desta mesma fonte (ibidem).
2 Note-se que, na construção consecutiva mais típica, ocorre primeiro a oração que denota a intensificação de um estado ou de um acontecimento e depois a oração subordinada adverbial consecutiva introduzida pela conjunção subordinativa que:
(i) Estávamos tão derreados que não nos podíamos mexer.
(ii) Em frente do alpendre, parou um grupo de mulheres cujos vultos estavam tão envoltos nos xailes que não os reconheceu.
(iii) A sopa estava tão saborosa que não conseguíamos parar de comer.
3 Sobre exclamativas parciais, ver M.ª Helena Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, Editorial caminho, 2003, pp. 482/483.