Pelourinho // Mau uso da língua no espaço público
Instância ou estância?
Um deslize que merece atenção
A cobertura jornalística do incêndio ocorrido em 01/01/2026 numa estância de ski (ou esqui) na Suíça trouxe, além da gravidade do acontecimento, um pequeno erro linguístico que vale a pena destacar. Numa das peças da CNN Portugal, nesse mesmo dia, ouviu-se referir o local como uma «instância de ski», troca que, embora comum, altera por completo o significado da frase.
A confusão é compreensível: as duas palavras são próximas na forma e no som (parónimas), mas pertencem a campos semânticos muito diferentes. Por um lado, estância, do latim stantia, plural neutro de stans, stantis, particípio presente de stāre, «estar firme» (Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa) designa um local de repouso, turismo ou lazer, como uma estância balnear ou uma estância de esqui. O termo, porém, é mais rico do que parece: pode significar também «paragem ou permanência», ter usos técnicos na construção, referir um ancoradouro na náutica ou até designar uma estrofe na linguagem literária. Apesar dessa variedade, o sentido espacial e concreto é sempre dominante.
Por outro lado, instância, do latim instantia, «insistência» (ibidem), refere-se sobretudo a realidades abstratas: um pedido insistente, um processo ou fase processual, um nível hierárquico no sistema judicial (primeira instância, segunda instância), ou ainda conceitos usados na filosofia, psicologia e sociologia. É, portanto, um termo ligado a procedimentos, estruturas e abstrações, nunca a lugares físicos.
Este episódio não pretende servir de censura, mas de lembrete. A língua exige atenção, sobretudo de quem trabalha diariamente com ela. E cada deslize é também uma oportunidade para reforçar o cuidado com as palavras, ferramentas essenciais para transmitir informação de forma rigorosa e eficaz.
