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@ entre acentos, géneros e beijos
@ entre acentos, géneros e beijos

«(...) Devido a ausência de um género gramatical neutro em português (e também noutras línguas), movimentos de (outros) géneros lembraram-se de usar o símbolo @ como substituto neutro para se referirem a grupos de géneros mistos, em desfavor da regra que, na maioria dos casos, dá preferência ao género … masculino. Tal parece ter resultado da forma da própria @, uma quase fusão das letras a e o, que definem o género feminino e masculino das palavras. Assim, a “correcção política” fica assegurada exterminando essa diabolizada discriminação linguística, embora cá para mim, a @ (ela própria feminina) esteja mais inclinada para, fisicamente, se associar a um a do que a um o. (...)»

 

Na linguagem da Net, foi dada sentença de morte ao espartano acento circunflexo, ao lânguido til, aos austeros acentos agudo e grave, e às cerimoniosas cedilhas. Quanto ao diacrítico trema, já antes do internetês, foi ao ar na reforma ortográfica de 1945, ainda que se use noutras línguas, como o alemão e até o espanhol, sem ser uma vergüenza. Dizia o grande escritor de língua portuguesa Machado de Assis que “escrever é uma questão de colocar acentos”. Há acentos (às vezes confundidos com assentos) para todos os gostos nas línguas do mundo. Por exemplo, o acento circunflexo invertido chamado cáron (Ă) próprio de alfabetos eslavos e não só, ou o anel das línguas escandinavas (Å).

No endereço electrónico, fui dos sacrificados. Na primeira versão, tiram-me um til e um acento e juntaram-me voluntariamente à força. Fui, assim, bagaofelix. Entretanto mudei, depois de insistentes pedidos destes apelidos. Mas também os meus nomes próprios António e José apanham com tal cerceamento de acentos. Como tentativa de aliciamento, deram-me, desprezivelmente, uma arroba @, igual para todos, retirada da tradição britânica de afixação de preços – at – nas velhas mercearias da ilha. Eu que, da arroba, só sabia os quinze quilos! Curioso é que, cada país, cada arroba, sobretudo zoológica. Em Itália o símbolo @ é o caracol (chiocciola), na Suécia é a tromba de elefante (snabel), na Holanda é o rabo de macaco (apenstaartje), na Grécia é o patinho (papaki), na Rússia é o cão (sobaka) e na Polónia é o macaco (małpa). À atenção do PAN!

Devido a ausência de um género gramatical neutro em português (e também noutras línguas), movimentos de (outros) géneros lembraram-se de usar o símbolo @ como substituto neutro para se referirem a grupos de géneros mistos, em desfavor da regra que, na maioria dos casos, dá preferência ao género … masculino. Tal parece ter resultado da forma da própria @, uma quase fusão das letras a e o, que definem o género feminino e masculino das palavras. Assim, a “correcção política” fica assegurada exterminando essa diabolizada discriminação linguística, embora cá para mim, a @ (ela própria feminina) esteja mais inclinada para, fisicamente, se associar a um a do que a um o. Palavras como amigosmoradorescandidatoscarosalunosmeninos são transformadas em amig@smorador@scandidat@scar@salun@smenin@s, se o grupo citado for composto por pessoas do sexo masculino e feminino. E, já agora, que tal portugues@s para evitar o longo e inchado “portugueses e portuguesas”?

Ora, de quando em vez, lá me aparecem no telemóvel ou no computador mensagens de atacado enviadas para car@s senhor@s ou querid@s amig@s fazendo da @ um símbolo assexuado em termos gramaticais.  Como @ puxa @, lembrei-me, por associação, da contracção abreijos, que evita os “beijos e abraços” no final das ditas mensagens. Curioso, se a contracção fosse ao contrário, daria beiços e o seu aumentativo beiçolas. Não me agradam os abreijos, devo dizer. Primeiro, porque não sei como se dão. Segundo, porque não sei se beijo e abraço são simultaneamente obrigatórios. Terceiro, porque ainda fico mais confuso quanto à decisão de dar um beijo numa face ou optar por dois ósculos nas duas faces. É que há uma senha ou um código para distinguir o grupo dos “beijos-dois-em-um”. Em certos grupos sociais pretensamente poderosos, ricos, ou “bem-educados”, o beijo deve ser em dose mínima, não vá o diabo tecê-las. Já a larga maioria beija-se em dose facialmente dupla. Custa o mesmo e não paga imposto. Ainda não desisti de tentar perceber a razão daquela, literalmente falando, singularidade beijoqueira.

 

Fonte

in jornal "Público" de 8 /09/ 2017, conforme a norma ortográfica anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor

Economista, professor universitário português, várias vezes chamado a exercer funções governativas. Comentador e colunista em diversos órgãos de comunicação portugueses, é autor, entre outros livros, de Do lado de cá ao deus-dará (2002), e O cacto e a rosa (2008), Prefácio sobre a "origem do conto do Vigário" de Fernando Pessoa (2011) e Trinta árvores em discurso directo (2013). Sobre o autor, mais aqui.