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João Pimentel Ferreira Portugal 584

Texto do consulente João Pimentel Ferreira, que no-lo enviou no seguimento do que aqui foi anteriormente publicado, da autoria de Luís Carlos Patraquim, glosando no mesmo registo satírico a contaminação de anglicismos... para tudo e para coisa nenhuma, em Portugal.

 

O Paulo é controller numa empresa com um elevado ranking. A empresa surgiu como spin-off de uma que fazia IT consulting para um banco que por sinal aplicava spreads muito altos porque nunca tinha budget suficiente!

O Paulo trabalha em outsourcing! De manhã vai ao ginásio e faz body fitness e por vezes faz body contact ou também body pump. Veste o fato e gravata, sai do ginásio entra no carro e liga o rádio. A RFM passa I want to live in Ibiza, na M80 ouve-se Born in the USA e a comercial passa Lady Gaga. Passa para a TSF e repara que as top 10 do Dow Jones mudaram!

Chega ao trabalho e vê que o laptop está avariado! Telefona a um expert que vê num site, envia um mail através de um link, este diz-lhe que ou é hardware ou software. Se for hardware só pode ser da motherboard, se for software deve ser algum trojan ou algumas cookies que fez download através de um browser.

Tem um feeling que o controle da equipe é difícil para se manter o know-how. Reúne-se para um brainstorming e concluem que precisam de mais workshops e melhor marketing. Compram uns scanners, fazem uns flyers, e têm que os distribuir, mas refere off the record que precisam de muito low-profile!

Sai do emprego e vê-se como freelancer num atelier de design. Almoça num franchising de fast food na happy hour porque tinha visto num out door de uma empresa de catering. Faz um pequeno briefing do que precisa, vai a um shopping com lojas low-cost e como recompensa recebe um voucher que só pode usar online.

Liga o laptop, e através do chat diz ao patrão que tem um background notável e que espera algum feedback da proposta que lhe enviou. Ri-se seriamente e tecla lol! Diz ao patrão que o marketing da empresa sempre respeitou o copyright! Faz logout, vai à net e vê uns carros a diesel e reserva um test drive.

Sai à noite para um pub, chama o garçon e pede um whisky. Ouve-se jazz e blues. Senta-se à sua frente um gay inglês, cantam karaoke, conversam um pouco e o Paulo diz que precisa de algum input. Fazem check-in para um duplex num hostel e activam uma jukebox que toca Nikita de Elton John. Salvam numa pen os ficheiros de um torrent para fazer backup, e usam-nos com uns joysticks para jogar online.

No fim, chama o staff do hotel, tomam um drink e refere que o seu slogan é “Yes, we can!”.

Atentamente.

João Carlos Araújo Reformado Lisboa, Portugal 4K

Concordando em pleno com a vossa Abertura do passado dia (A despromoção da língua via anglicismos), permito-me acrescentar à lista aí de palavras e expressões inglesas de uso escusado na nossa comunicação social o recorrente "low cost". São os voos "low cost". as companhias de aviação "low cost", as férias "low cost", as casas "low cost", as gasolineiras e os estacionamentos "low cost". Até há, já, imagine-se, perfumes "low cost"!!... Acaso se evaporaram, de vez, da língua portuguesa, os adjetivos e expressões barato, económico, de baixo custo/preço, em conta, por exemplo?!

Rui Fonseca Estudante Lisboa, Portugal 5K

Penso que está na hora de extinguirmos a classificação das palavras em género masculino, pois isto causa confusão na cabeça de algumas pessoas. Chegámos ao ponto de [em Portugal] um partido, o Bloco de Esquerda, fazer um projecto de resolução a propor a alteração do nome do cartão de cidadão, porque, leia-se: «a designação desde documento de identificação não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa», num total desconhecimento de como funciona a língua portuguesa. A minha sugestão é alterar-se a denominação de masculino para neutro, pois é semanticamente mais próxima do verdadeiro uso desta classe gramatical. Ficamos então com palavras do género feminino, que fazem marcação de género, e palavras de género neutro, isto é, sem marcação de género. Quando dizemos «as cidadãs», sabemos que se trata de um grupo exclusivamente feminino, visto que foi usado o substantivo no feminino. Portanto, estamos perante marcação de género. Quando dizemos «os cidadãos», tanto pode ser um grupo exclusivamente masculino como misto ou, até, exclusivamente feminino, caso não saibamos a composição do grupo. Portanto, estamos claramente perante um substantivo numa forma que não faz marcação de género. Sendo assim, chame-se neutro, e não masculino, e pode ser que desta forma algumas pessoas não se sintam excluídas por ingenuamente acharem que um substantivo que pertence à classe gramatical a que chamamos «género masculino» as exclui porque elas são do sexo feminino.

Mestre António Reformado Cascais, Portugal 5K

A língua não está parada, argumentam os defensores do pseudo acordo. Pois é verdade que não está. Mas muitas vezes é pelas piores razões. O PSEUDO-ACORDO É UMA DELAS - Mas vejamos o que se passa dentro de portas. O pronome relativo CUJO/A/S, já desapareceu. Com ele se faziam as mais belas frases tal como continuam a fazer os franceses com o seu correspondente DONT - Que fez o CIBERDÚVIDAS para o salvar ?. Nada, que eu saiba. Em vez disso andam entretidos com questões de LANA CAPRINA. É isto que querem os defensores do ps. acordo? Isto é que é evolução da língua? ou não será involução? quando muito lê-se nos jornais uma forma espúrea inventada pelos alunos que é: CUJO O, CUJA A -A beleza deste pronome relativo desapareceu com ele. A razão já foi dita no séc- XlX pelo Anatole France: "quem não sabe jogar xadrez, que jogue damas" A preposição SOB está em vias de desaparecimento tal como já aconteceu ao pronome relativo que referi. É sempre substituída pela sua contrária SOBRE até por gente culta como políticos, etc O CIBERDÚVIDAS faz alguma coisa para evitar mais esta involução? Nada , que se veja- Os seus técnicos de linguística andam entretidos com questões de LANA CAPRINA, mais uma vez.

A favor do Acordo Ortográfico 8K

[Mensagem recebida pelo Facebook, a respeito de uma nota da Abertura de 1/02/2016, segundo a qual zica é um bom aportuguesamento ortográfico de Zika («vírus de Zika»), se se pretender converter este nome próprio em nome comum.]

Não faz sentido mudar o K para C...

Se o K faz parte do nosso alfabeto, o mais lógico era escrever-se Zika (para além do mais, esta palavra é um nome próprio).

Isabel de Sena Professora universitária Bronxville, Nova Iorque, Estados Unidos 7K

Achei muito interessante o artigo de Edno Pimentel, sobre o uso de "soas" para designar pessoas na fala angolana. As línguas mudam e evoluem, ou estaríamos ainda a falar latim... ou quem sabe o quê antes disso.

No entanto, e sem implicar crítica para o artigo de Edno Pimentel, pelo contrário, não posso deixar de recordar que em criança, e disso já vão muitas décadas, era costume chamar às professoras, "sora fessora", ou formas semelhantes na linguagem infantil, que nos corrigem a pouco e pouco, impondo normas e ensinando-nos que o que se diz e o que se escreve devem coincidir, mesmo que (quase) ninguém o faça... No Brasil, Senhor há muito que foi substituido por "Seu", e a vida continua.

Muito obrigada por continuarem a publicar artigos interessantes como o de Edno Pimentel, resolver as nossas dúvidas pequenas e grandes, e por criar um espaço onde se possam arejar livremente.

Com os meus melhores cumprimentos,

Rui Tavares Médico Porto, Portugal 8K

Como se pode causar tamanha e aberrante alteração à ortografia pondo em causa os princípios mais básicos da escrita em relação à própria origem da palavra (e não só)? Como cidadão não aceito tal "aborto ortográfico" (AO90) porque o mesmo foi imposto sem existir uma consulta alargada e acima de tudo sem consenso da própria sociedade! O AO90 não vem unificar absolutamente nada! Depois de ler atentamente e por algumas vezes o que o AO90 pretende modificar fiquei com a certeza da ingenuidade do mesmo, senão mesmo que algo bem mais obscuro poderá estar por detrás de tal vil atentado contra a Língua Portuguesa! Escrevo e leio centenas de páginas por dia na minha actividade técnica e acreditem que este AO90 veio dificultar em muito o sentido da escrita!

João de Brito Professor aposentado Vila Real, Portugal 8K

Nem é um comentário, nem é uma pergunta. É uma dica. Acabo de ler as vossas entradas deste assunto e não encontrei a sugestão que se segue (que retiro, se vi mal). As pessoas em geral não são muito sensíveis à explicação técnica de que o verbo haver é um verbo impessoal. Parece-me mais eficaz fazer-lhes ver que, no tempo presente (modo indicativo), ninguém diz (nem eles próprios) «aqui HÃO muitas pessoas», mas toda a gente diz «aqui HÁ muitas pessoas».

Pedro Melo Médico Porto, Portugal 8K

Aparentemente com o Acordo Ortográfico de 1990 óptica passou a ótica. Já tínhamos uma ótica, relacionada com áreas anatómicas e aparelhos distintos. Parece-me que nada se ganhou com esta alteração, apenas mais confusão. Não será preferível – e tecnicamente desejável – manter a grafia anterior?

Obrigado.

João Ferreira Estudante Lisboa, Portugal 8K

Há umas quantas coisas que não percebo no Acordo Ortográfico. Foi tão longe ao ponto de eliminar consoantes mudas que nem sempre são mudas, o acento em pára que tanta falta faz, tornar opcional o acento em verbos acabados em -ámos que tanta confusão me faz pois muitas vezes não sei como os hei-de ler. No entanto, foi tão conservador noutras coisas que faria sentido terem sido alteradas. Que curiosamente parecem ser as coisas que mais oposição do Brasil teriam.

Parece que o AO foi mais audaz nas alterações que afectam os portugueses, mas bastante cuidadoso com as alterações que afectam os brasileiros. Portanto, a par da retirada dos acentos em vêem, aplaudo a retirada dos acentos nos ditongos abertos. Poucas são as ambiguidades criadas, e as que haja, são muito mais fáceis de resolver pelo contexto do que a retirada dos acentos em -ámos e pára, que ainda assim foi em frente. Por este motivo não percebo qual é o racional de o AO manter os acentos nas palavras agudas. São tão desnecessários quanto os das palavras graves.

Heroi é tão perceptível quanto heroico. Estanho é termos heroico mas herói. Sinceramente, acho que foi uma oportunidade perdida de nos livrarmos de mais uns acentos desnecessários: «Os hoteis do Algarve exigem que preenchamos demasiados papeis.» Até posso compreender que o objectivo do AO era aproximar as grafias dos vários países e que apenas a retirada dos acentos nas palavras graves contribuía mais para esse efeito. Mas acho que acima de tudo deve estar a qualidade linguística do acordo e acho que em termos linguísticos teria feito mais sentido remover estes acentos. Faz-me pensar se o AO não terá dado demasiada prioridade à aproximação das grafias tendo descurado o aspecto linguístico.

Mas já que a questão era aproximar as grafias, houve uma outra oportunidade perdida. Eu sou de Portugal e pronuncio termómetro, quilómetro, Andrómeda, etc, com aquele Ó fechado. Embora pronuncie fenómeno, come, etc, com O aberto e isto nunca me fez confusão nenhuma. Também temos palavras como "também", em que o E nasal final é fechado (posteriormente ditonguizado), mas como não existe um E nasal aberto usa-se o acento agudo de forma neutra apenas para marcar a sílaba tónica e não o timbre da vogal. Uma forma que teria contribuído imenso para aproximar as grafias teria sido definir que os acentos em vogais antes de consoantes nasais são neutros (esta regra poderia eventualmente ser aperfeiçoada), i.e., apenas marcam a sílaba tónica e não o timbre da vogal. Isto não tem desvantagens pois não há qualquer ambiguidade entre palavras causadas por essa alteração (não há pares mínimos). 

Apenas se deixaria de saber o timbre da vogal através do acento, tal como acontece na maior da palavras. E relembro que para alguns dialectos, o acento agudo já funciona dessa forma, pois eu tanto pronuncio a vogal aberta como fechada apesar de terem acento agudo. Esta teria sido uma mudança que teria unificado imensas palavras, passaria a haver uma só grafia: fenómeno, quilómetro, termómetro, efémero, etc. 

Mais uma vez não compreendo o racional linguístico por trás do AO ao adoptar certas alterações e evitar outras que fariam tanto ou mais sentido que as alterações adoptadas.