Correio - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
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Júnior Lima Dias Estudante de Direito Maceió – AL, Brasil 569

Gostaria de manifestar meu descontentamento com a replicação do artigo "10 expressões racistas que deveríamos tirar do nosso vocabulário", retirado do portal de pseudociências Universa.

O Universa é nada mais que uma seção do portal UOL no qual se publicam baboseiras como horóscopos e se dá respaldo a pseudociências "femininas" como as propriedades mágicas de ovos de pedra inseridos em vaginas e as mulheres que "largaram tudo para serem bruxas em tempo integral". Como era de se esperar tendo em vista o lastimável portal de origem do artigo, não lhe faltam erros e afirmações sem fontes com credibilidade.

dicionário Michaelis não corrobora as historinhas contadas para atribuir a origem da maioria das expressões mencionadas. O artigo de Vera Menezes trata unicamente da metáfora negro, como em «lista negra», que é milenar e não tem conotação racial (a atribuição de sensações ruins a "escuro" é natural e verificada em inúmeras civilizações. Afinal, não é raro ter medo de escuro, mas não conheço ninguém que tenha medo do claro). Stephanie Ribeiro, por sua vez, é uma arquiteta especialista em escrever textões no Facebook, não em etimologia, linguística ou língua portuguesa. Não é fonte confiável, quer para a origem, quer para o significado, de nenhuma expressão. Denegrir, se de fato tem origem no latim denigrare (não encontrei fontes a respeito e o Michaelis aponta de+negro+ir), evidentemente antecede a própria existência da escravidão moderna e logicamente não tem conotação racial em sua etimologia. Entretanto, é compreensível o desconforto com a expressão nos dias de hoje.

Por outro lado, a etimologia atribuída a criado-mudo aparenta ter sido criada no Twitter ou em alguma conversa de bar de militantes. Não é embasada por nenhum registro histórico ou linguístico e é extremamente inverossímil. Escravos sempre custaram caro. Não é crível que parcela significativa da população tivesse dinheiro para manter um escravo segurando coisas se penduradores e móveis já existem há milênios. Mesmo se o escravo não tivesse custo, ter uma pessoa prestando esse serviço não parece conveniente. Quanto ao "mudo", é muito mais provável que seja referência à quietude do móvel – que não fala! – que ao silêncio que deveria ser mantido pelo escravo (a propósito, imagino que a nenhum escravo doméstico era dado conversar na presença dos donos). Em suma, é mais provável que a origem do termo seja uma simples metáfora.

«Nas coxas», por sua vez, tem a explicação mais absurda desse texto. Não faltam professores e etimólogos explicando que essa expressão tem cunho sexual, não racista. Mesmo que não existisse essa explicação, nenhum historiador jamais registrou essa prática ilógica e estúpida de moldar telhas em coxas.

A explicação de mulata tem respaldo histórico, mas a autora omitiu a controvérsia e a possível explicação segundo a qual o termo vem do árabe.

«Ter um pé na cozinha», embora seja inegavelmente uma expressão racista, possivelmente tenha uma origem muito mais simples e lógica, análoga a «ter um pé na cova». «Ter um pé» seria metáfora para «ser parte». Então, ter um pé na cozinha ou na senzala seria sinônimo de ser parte escravo.

A «cor do pecado», por sua vez, não necessariamente tem a ver com peles "exóticas" ou mulheres negras (até porque é expressão que se usa também para homens), mas com peles bronzeadas. «Fulano está da cor do pecado» pode se referir a uma pessoa branca que tomou sol, por exemplo.

Doméstica, por sua vez, é tão obviamente mera redução de «empregada doméstica», que é espantoso acreditar que uma jornalista tenha caído numa invenção etimológica tão bizarra. Faltou, ainda, a fonte histórica para a afirmação de que as escravas domésticas tinham pele mais clara. Doméstico, por sua vez, significa «de casa», não "domesticado". Exatamente por isso o termo «empregado doméstico» é utilizado na legislação para tratar não somente de faxineiras, cozinheiras, babás e afins, mas também de jardineiros e seguranças residenciais. Questiono a autora sobre qual termo deveria ser usado em sua substituição: «moça que trabalha lá em casa», «secretária», ou outro eufemismo mais esdrúxulo?

Glória Esther Lisboa, Portugal 468

[A propósito da resposta A escrita das siglas de três clubes de futebol portugueses ] lamento contrariá-los, mas, o que a prática tinha consagrado durante dezenas e dezenas de anos, como se poderá comprovar na imprensa escrita existente nos respectivos jornais ou nas bibliotecas, bem como nas diversas publicações da especialidade, escrevia-se F.C. do Porto, F.C.P., como aparece na história deste clube, etc.

Poderei anexar, se desejarem, diversa documentação que atesta o que escrevi.

Em boa verdade, a ausência dos pontos é muito recente, por uma questão de preguiça, presumo.

Anónimo(a) 1K

* Carta transcrita do jornal Público do dia  18/08/2019, assinada pelo leitor Carlos Leal,  de Lisboa. Manteve-se  a grafia original.

Márlon Rodrigues Servidor público Porto Velho, Brasil 7K

Primeiramente vos parabenizo, mais uma vez, pelo excelente trabalho que fazeis em sanar dúvidas e divulgar a língua portuguesa com tamanho afinco!

Talvez a pergunta, que já farei a seguir, não convenha aos temas que ao Ciberdúvidas se propõem, mas fá-la-ei mesmo assim e ficará ao vosso encargo julgar sua pertinência. Pois bem! Consulto a página do Ciberdúvidas e vejo que se lançará em 20/11/2018 (amanhã!), em Lisboa, o livro do professor Marco Neves chamado Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português. Imediatamente fui procurá-lo no sítio dalgumas livrarias brasileiras, mas não o encontrei! Assim como não encontro obras doutros autores desse lado do Atlântico e doutros cantos onde se fale português! Sei que no século passado era possível comprar nas livrarias brasileiras títulos como Falar e Escrever do eminente professor Cândido de Figueiredo que, aliás, ainda se podem achar em sebos país afora em edições antigas. Eis, enfim, minha proposta de artigo: o que obsta que obras portuguesas sejam vendidas ao Brasil uma vez que, inclusive, temos editoras portuguesas (LeYa) no país? Além disso, ocorre de livros brasileiros não serem vendidos por aí? Será possível um mercado livreiro comum entre os países lusófonos? Sei que tais questões deviam ser feitas a políticos ou a representantes de Câmaras de Comércio, mas gostaria de ouvir a vossa opinião a respeito disto.

Muito obrigado pela atenção!

Olga M. Costa da Fonseca Professora Faro, Portugal 12K

A que propósito aparece esta crónica* de RAP [Ricardo Araújo Pereira] neste site?! A linguagem que o autor usa não é inclusiva: é ridícula. Para usar linguagem inclusiva não há necessidade de carregar o texto de pares de masculino e feminino. A nossa língua é suficientemente rica para que isso não seja necessário e há documentos a explicar como isso se faz.

Só a título de exemplo, este Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública.

Quem fala assim não é gago nem gaga

José de Vasconcelos Saraiva Fortaleza, Brasil 20K

Gostaria de saber o que regula o emprego do porque no Português do Brasil. Que é que regula a ortografia brasileira? Há alguma lei ou só o acordo ortográfico de 1990 é que a regula? Será que é o Vocabulário Oficial da Academia Brasileira de Letras? Se a ortografia brasileira só se rege pelo acordo ortográfico de 1990, por que é que temos necessariamente de escrever o advérbio interrogativo «por que» com os elementos despegados, uma vez que o mesmo acordo é omisso quanto ao uso dos porquês? Pode dizer-se que a ortografia brasileira, sob esse aspeto, segue a tradição das gramáticas portuguesas ou se pauta no português velho não revisado que os lusitanos trouxeram consigo para o Brasil, visto que em Portugal o advérbio interrogativo também se escrevia com os elementos despegados?

Ângelo A. Vaz Portugal 20K

A propósito da nova série da RTP 1 7 maravilhas de Portugal – Aldeias, [...] anexo uma foto da histórica Piódão, onde se constata o erro, demasiado comum, de "misturar"/confundir as unidades temporais e goniométricas minuto e segundo, ambas sexagesimais, mas totalmente diferentes.

Essas unidades têm, respectivamente, os símbolos <min> e <s> / <'> e <">.

Como se vê na foto anexa, <0h 55">, <0h 45"> e <1h 05"> NÃO É NADA!

Do mesmo modo, o símbolo do "quilómetro" é <km>, com k minúsculo, e não maiúsculo!

Estas duas situações anteriores são demasiado frequentes, quer nas TV, quer na imprensa escrita.

Já agora, outras situações que aproveito para relatar:

(a) É muito frequente a RTP omitir, nas legendas, a acentuação gráfica de algumas palavras, bem como as partículas de ligação (por exemplo, de, ...).

(b) Também é "normal", muitas vezes, em rodapé, surgirem entre aspas (logo, assumido como citação!), frases que não correspondem ao que, na realidade, se está simultaneamente a ouvir!

(c) E que tal, estes abusos falados?

– "tava", "tar", "teve", "tá", "tou", em vez das formas correctas do verbo estar;

– "tamém", em lugar de também;

– "péra", em vez de espera;

– "pa", "pó", em vez da preposição para;

– "só pá ver", em lugar de «só para haver»;

– etc.

João Pimentel Ferreira Portugal 21K

Texto do consulente João Pimentel Ferreira, que no-lo enviou no seguimento do que aqui foi anteriormente publicado, da autoria de Luís Carlos Patraquim, glosando no mesmo registo satírico a contaminação de anglicismos... para tudo e para coisa nenhuma, em Portugal.

 

 

O Paulo é controller numa empresa com um elevado ranking. A empresa surgiu como spin-off de uma que fazia IT consulting para um banco que por sinal aplicava spreads muito altos porque nunca tinha budget suficiente!

O Paulo trabalha em outsourcing! De manhã vai ao ginásio e faz body fitness e por vezes faz body contact ou também body pump. Veste o fato e gravata, sai do ginásio entra no carro e liga o rádio. A RFM passa I want to live in Ibiza, na M80 ouve-se Born in the USA e a comercial passa Lady Gaga. Passa para a TSF e repara que as top 10 do Dow Jones mudaram!

Chega ao trabalho e vê que o laptop está avariado! Telefona a um expert que vê num site, envia um mail através de um link, este diz-lhe que ou é hardware ou software. Se for hardware só pode ser da motherboard, se for software deve ser algum trojan ou algumas cookies que fez download através de um browser.

Tem um feeling que o controle da equipe é difícil para se manter o know-how. Reúne-se para um brainstorming e concluem que precisam de mais workshops e melhor marketing. Compram uns scanners, fazem uns flyers, e têm que os distribuir, mas refere off the record que precisam de muito low-profile!

Sai do emprego e vê-se como freelancer num atelier de design. Almoça num franchising de fast food na happy hour porque tinha visto num out door de uma empresa de catering. Faz um pequeno briefing do que precisa, vai a um shopping com lojas low-cost e como recompensa recebe um voucher que só pode usar online.

Liga o laptop, e através do chat diz ao patrão que tem um background notável e que espera algum feedback da proposta que lhe enviou. Ri-se seriamente e tecla lol! Diz ao patrão que o marketing da empresa sempre respeitou o copyright! Faz logout, vai à net e vê uns carros a diesel e reserva um test drive.

Sai à noite para um pub, chama o garçon e pede um whisky. Ouve-se jazz e blues. Senta-se à sua frente um gay inglês, cantam karaoke, conversam um pouco e o Paulo diz que precisa de algum input. Fazem check-in para um duplex num hostel e activam uma jukebox que toca Nikita de Elton John. Salvam numa pen os ficheiros de um torrent para fazer backup, e usam-nos com uns joysticks para jogar online.

No fim, chama o staff do hotel, tomam um drink e refere que o seu slogan é “Yes, we can!”.

Atentamente.

N.E. – (25/02/2017; correção em 1/3/2017) Outro anglicismo que prolifera nas redes sociais é o termo hater, do verbo inglês to hate («odiar», em português), usado para se manifestar desagrado contra alguém que escreva coisas reprováveis. Para o castelhano, a alternativa proposta pela Fundação para o Espanhol Urgente (Fundéu/BBVA) foi a palavra odiador – forma igual à do vocábulo já adotado no Brasil. Outras alternativas possíveis, que são a transposição para o português das soluções castelhanas da Fundéu: antipatizante, inimigo, detrator, difamador ou maldiciente, por exemplo.

João Carlos Araújo Reformado Lisboa, Portugal 25K

Concordando em pleno com a vossa Abertura do passado dia (A despromoção da língua via anglicismos), permito-me acrescentar à lista aí de palavras e expressões inglesas de uso escusado na nossa comunicação social o recorrente "low cost". São os voos "low cost". as companhias de aviação "low cost", as férias "low cost", as casas "low cost", as gasolineiras e os estacionamentos "low cost". Até há, já, imagine-se, perfumes "low cost"!!... Acaso se evaporaram, de vez, da língua portuguesa, os adjetivos e expressões barato, económico, de baixo custo/preço, em conta, por exemplo?!

Rui Fonseca Estudante Lisboa, Portugal 31K

Penso que está na hora de extinguirmos a classificação das palavras em género masculino, pois isto causa confusão na cabeça de algumas pessoas. Chegámos ao ponto de [em Portugal] um partido, o Bloco de Esquerda, fazer um projecto de resolução a propor a alteração do nome do cartão de cidadão, porque, leia-se: «a designação desde documento de identificação não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa», num total desconhecimento de como funciona a língua portuguesa. A minha sugestão é alterar-se a denominação de masculino para neutro, pois é semanticamente mais próxima do verdadeiro uso desta classe gramatical. Ficamos então com palavras do género feminino, que fazem marcação de género, e palavras de género neutro, isto é, sem marcação de género. Quando dizemos «as cidadãs», sabemos que se trata de um grupo exclusivamente feminino, visto que foi usado o substantivo no feminino. Portanto, estamos perante marcação de género. Quando dizemos «os cidadãos», tanto pode ser um grupo exclusivamente masculino como misto ou, até, exclusivamente feminino, caso não saibamos a composição do grupo. Portanto, estamos claramente perante um substantivo numa forma que não faz marcação de género. Sendo assim, chame-se neutro, e não masculino, e pode ser que desta forma algumas pessoas não se sintam excluídas por ingenuamente acharem que um substantivo que pertence à classe gramatical a que chamamos «género masculino» as exclui porque elas são do sexo feminino.