«Somos o que somos»: o que em orações relativas livres - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
«Somos o que somos»: o que em orações relativas livres

No período: «Somos o que somos», o o (pronome demostrativo) é parte integrante da oração principal («Somos o»), ou da oração subordinada adjetiva restritiva («o que somos»)?

Marcos Pélico Ferreira Alves Estudante Cássia, Brasil 6K

A construção «Somos o que somos» é um caso ilustrativo de um subtipo de orações relativas: as orações relativas sem antecedente expresso ou orações relativas livres. Dentro deste subgrupo, pode-se atender especificamente às orações encabeçadas pelo morfema o que (além do exemplo trazido pelo consulente outros poderiam ser acrescentados como «Aprecio o que fizeste» ou «Fiz o que era melhor para ela», extraídos de Mateus et al. 2003: 682).

As orações relativas sem antecedente expresso ou relativas livres encabeçadas pelo morfema o que constituem um caso particularmente complexo, não existindo consenso entre os vários autores no que respeita à análise estrutural mais adequada. Em Brito (1991) e em Móia (1996), encontramos a indicação das hipóteses que suportam as diferentes análises propostas para a sintaxe das orações em referência.

A questão que se apresenta é a de saber se, nas orações relativas livres, o que é analisado em dois constituintes, o, tradicionalmente designado «pronome demonstrativo», constituindo o antecedente seguido da oração iniciada por que, ou é um único constituinte, constituindo um complexo [o que] é a combinação de SN. Na tradição gramatical e nos estudos linguísticos, existem propostas de análise favoráveis a cada uma das soluções apontadas, não havendo uma resposta única. Em Mateus et al. (2003: 683), Ana Maria Brito pronuncia-se sobre esta questão do seguinte modo: «O que parece acontecer é que, enquanto morfema não interrogativo, em presença de o, que pode ou não sofrer um processo de reanálise: se sofrer reanálise, forma com ele um complexo, um constituinte contínuo: [o] [que] → [o que]SN; se não sofrer reanálise, uma preposição pode surgir entre eles, como em [Já tenho o de que me falaste]. Repare-se que este problema se coloca com o e não com aquele que, aquilo que, etc., porque, por um lado, o é um elemento átono ou clítico e, por outro lado, por ser masculino e singular, tanto pode ser encarado como um elemento flexionável como um elemento "neutro", invariante.»

 

Referências bibliográficas:

Brito, Ana Maria (1991), A Sintaxe das Orações Relativas em Português, Porto, INIC.
Mateus, Maria Helena Mira et al. (2003), Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho.
Móia, Telmo (1996), A sintaxe das orações relativas sem antecedente expresso do português, Gonçalves, Anabela; Colaço, Madalena; Miguel, Matilde; Móia, Telmo, in Quatro Estudos em Sintaxe do Português, Lisboa, Edições Colibri, pp. 149-188.



Sónia Valente Rodrigues
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: pronome