Se impessoal vs. se passivo, como sempre - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Se impessoal vs. se passivo, como sempre

«Não se desabotoa as calças em público», ou «não se desabotoam as calças em público»?

Obrigada!

Carolina Ferreira Jurista Lisboa, Portugal 9K

A partir de frases como «Vende-se casas» e «Vendem-se casas», João Andrade Peres e Telmo Móia dizem na página 237 da 2.ª edição de Áreas Críticas da Língua Portuguesa: «Na nossa opinião, ambas as construções são aceitáveis, embora se possa preferir uma ou outra por razões estilísticas. A nossa posição resulta de dois factores: por um lado a aceitação generalizada por parte dos falantes que o uso do clítico impessoal com verbos transitivos parece ter; por outro lado, o facto de não julgarmos haver razões — estruturais ou semânticas — para aceitar a construção com o clítico impessoal nuns casos e rejeitá-la noutros.»

Esta é a posição prevalecente hoje para construções deste tipo: considera-se que as duas construções estão correctas, sendo o valor do clítico se diferente em cada uma delas. Na frase «Não se desabotoa as calças em público», o clítico se tem valor impessoal; na frase «Não se desabotoam as calças em público», o se tem valor apassivante. O se impessoal indica indeterminação do sujeito, e o verbo que o acompanha é sempre singular, não tendo de concordar com nenhum outro elemento da frase; ao passo que o verbo que acompanha o se apassivante concorda em número com o seu argumento interno (neste caso, as calças).

Importa dizer, no entanto, que gramáticos mais puristas consideravam que o clítico se impessoal não podia ser usado com verbos transitivos. Segundo Napoleão Mendes de Almeida, na sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa, em construções deste tipo, com verbo transitivo, o verbo deve concordar com o constituinte que está na posição de complemento (à direita do verbo), uma vez que nestes casos o clítico se expressa passividade. Segundo esta perspectiva, a frase em questão deveria ser «não se desabotoam as calças em público».

Resta acrescentar que se usa o verbo sempre no singular, se não se tratar de um verbo transitivo directo. Diz Mendes de Almeida que se emprega «a voz passiva com os verbos intransitivos e transitivos indirectos para indicar impessoalidade , isto é, para indeterminar o sujeito do verbo , ficando o verbo sempre no singular » (p. 217). Dá como exemplos «No Rio de Janeiro passeia-se muito » ou «Precisa-se de costureiras».

 

Nota do editor – A colocação do verbo no singular ou no plural nas frases com a partícula se é um tema não consensual na língua portuguesa. Vide, por exemplo, as seguintes respostas e textos: O verbo ver com a partícula apassivante + Vende-se ou vendem-se? + O predicativo do sujeito e o se da construção impessoal reflexa + Aluga-se esta casa. E estes outros registos: Aluga-se ou alugam-se carros? + Alugam-se ou aluga-se?Vende-se ou vendem-se casas? Aluga-se ou arrenda-se? + Sem/Cem erros (re)correntes em português + -se passivo e o -se impessoal

Nuno Carvalho
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe