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Para vs. pára no novo acordo ortográfico

Escrevo para dizer que aprecio positivamente o Acordo Ortográfico. Porém, e deparando-me com a regra em que se menciona a indiferenciação gráfica entre para (preposição) e pára (forma verbal), não compreendi a lógica desta opção. De facto, até cheguei a fazer alguns exercícios (bastante caricatos) sobre como esta situação pode ser francamente confusa.

Passo o exemplo:

«Para para que possas reflectir,
para para que possas sonhar calmamente,
para que o teu trabalho seja frutuoso para,
para para olhar o teu redor
com a placidez dos sábios.
Para com as soluções gratuitas,
para com o facilitismo imprudente
para com a melhor das intenções
singrares depois num áureo caminho.»

Qual é, enfim, o sentido desta regra?

Edward Gonçalves Pinto Estudante Lisboa, Portugal 16K

O sentido da regra é a simplificação. Pára tem tido acento para não se confundir com a preposição para, mas a verdade é que o contexto normalmente evita a confusão.

Tem de aceitar que as frases que apresenta são todas agramaticais, se considerarmos a grafia para sempre uma preposição.

a) Escrever duas preposições iguais seguidas contraria as regras, a não ser quando usadas enfaticamente.

b) A vírgula no fim da terceira frase deixa a ideia em suspenso se quisermos considerar o segundo para como uma preposição.

c) A última frase está igualmente incompleta se considerarmos a grafia para sempre uma preposição (para isto, para aquilo e para mais aquilo… o quê?...).

O treino no uso da língua permite normalmente avaliar se o conjunto escrito tem coesão. Se aparentemente não o tem, o cérebro humano tende a corrigir o defeito em busca dum sentido coerente, para entender a mensagem (é essa ainda a sua grande vantagem em relação às máquinas, que ficam penduradas quando lhes aparece uma novidade no programa).

Por outro lado, o escritor que verdadeiramente se preocupa com os seus leitores usa as suas palavras por forma a que no contexto não haja ambiguidades (ex.: «Interrompe o que está a fazer, para que possas reflectir!»)

No caso de o escritor pretender a ambiguidade e não se preocupar muito com a perfeição do texto, então até convém que a riqueza da língua o permita. Exemplo: «Para a decisão Alcochete, para o projecto Ota, de quem são os interesses beneficiados?” A segunda grafia de para pode dar vários sentidos à ideia: para sempre preposição permite pensar que havia interesses beneficiados quer numa solução quer na outra; com o segundo para forma verbal, o interesse seria de todos nós, nacional… ou muito o dos defensores da margem sul?...

 

N.E.    A abolição do acento gráfico nas palavras homógrafas graves consagradas pelo Acordo de 1945, em Portugal, e pela Lei n.º 5765, de 18 de dezembro de 1971, no Brasil, regulou desde então a mesma forma escrita, entre outros exemplos, para acerto (ê) / (é), acordo (ô) / (ó) (substantivos/ formas verbais); cor (ô) / (ó) (substantivo / elemento da locução "de cor"); sede (ê) e sede (é); molho (ô) / molho (ó), ambos substantivos. Cf. "Supressão dos acentos nas palavras homógrafas: pelo, para, molho. sede, cor", de Lúcia Vaz Pedro ("Jornal de Notícias", 4/10/2015). 

 

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho
Classe de Palavras: verbo