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Oração subordinada adjetiva relativa restritiva ou substantiva relativa sem antecedente?

Num manual do 9.º ano de escolaridade, a oração «onde nos vimos pela primeira vez» na frase «Fui jantar com o Pedro ao restaurante onde nos vimos pela primeira vez.» surge classificada como oração substantiva relativa, desempenhando a função sintática de modificador do grupo verbal. Contudo, a oração em análise não é uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva (com função sintática de modificador restritivo do nome)?

André Tavares Professor Angra do Heroísmo, Portugal 243

Sim, a análise da consulente está correta. Na frase «Fui jantar com o Pedro ao restaurante onde nos vimos pela primeira vez», a oração «onde nos vimos pela primeira vez» é uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva, cuja função sintática é modificador restritivo do nome. Todas as orações subordinadas adjetivas relativas são modificadores do nome ao qual se referem. Nesta frase, a oração relativa é introduzida pelo advérbio relativo onde.

Por outro lado, existem também orações subordinadas substantivas relativas sem antecedente, introduzidas pelos advérbios relativos onde e como:

a)      O João escreve os seus romances onde lhe apetece.

b)      Ele estuda como lhe dá mais jeito.

Ambas as orações subordinadas («onde lhe apetece», em a) e «como lhe dá mais jeito», em b)) são introduzidas por um advérbio relativo sem antecedente; isto é, a expressão lexical a que estão associados (a qual deve ocorrer à esquerda da palavra relativa, permitindo identificar a entidade a que se refere) está ausente. A oração substantiva relativa sem antecedente pode desempenhar várias funções sintáticas¹.

Na frase a), a oração «onde lhe apetece» e na frase b), a oração «onde lhe dá mais jeito» desempenham a função sintática de modificador do grupo verbal da subordinante («O João escreve os seus romances» em a) e «Ele estuda» em b)).

Assim, temos uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva em 1.

1.       O sítio onde ele escreve é aprazível.

E em 2), uma oração subordinada substantiva relativa sem antecedente.        

2.       Ele escreve onde lhe apetece


 ¹Sujeito (Quem não trabalha não progride.); complemento direto (Eu respeito quem me ajuda.); predicativo do sujeito (Ele não é quem parece.); complemento indireto (É preciso dar valor a quem trabalha.) complemento agente da passiva (O quadro foi comprado por quem fez a melhor oferta); complemento oblíquo do verbo da subordinante (Ele pensa em quem sempre o ajudou.) e modificador do grupo verbal (Eu canto onde me apetece).

  (cf. Gramática prática de português, Lisboa editora, pp163-165) 

Brígida Trindade
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: advérbio
Áreas Linguísticas: Sintaxe Campos Linguísticos: Orações