O pronome lhe e o complemento oblíquo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O pronome lhe e o complemento oblíquo

Agradeço um esclarecimento sobre a dúvida seguinte:

Na frase «Ele falou aos amigos», o constituinte «aos amigos» desempenha a função sintáctica de complemento indirecto. E qual é a função sintáctica de «com os amigos» na frase «Ele falou com os amigos»?

Semanticamente, «falar a» e «falar com» têm o mesmo valor. Num dicionário que consultei (Dicionário de Verbos Portugueses, Porto Editora), a regência do verbo falar é apresentada deste modo:

falar de, sobre: «falámos dele», «falou-se sobre futebol».

falar a, com: «ele falou a todos», «ele falou com todos».

falar em: «falei nele ao professor»; «falou ontem no assunto»; «falaram em vir mais cedo»; «falei-lhes em inglês».

Porém, sintacticamente, surge a seguinte dúvida:

Na primeira frase, «aos amigos» é um complemento indirecto, sendo introduzido pela preposição a e sendo substituível pelo pronome lhes: «Ele falou-lhes.»

Na segunda frase, «com os amigos» é aparentemente um complemento oblíquo; no entanto, penso que é substituível pelo pronome lhes: «Ele falou-lhes.» Qual é, então, a sua função sintáctica?

Agradeço desde já a atenção dispensada.

Fernanda Costa Professora Porto, Portugal 5K

De acordo com o Dicionário Terminológico (Ministério da Educação de Portugal), o constituinte «com os amigos» desempenha a função de complemento oblíquo na frase «Ele falou com os amigos».

No Vocabulário de Regime Proposicional de Verbos (Lisboa, Didáctica Editora, 1999), de Cármen Nunes e Leonor Sardinha, verifica-se que o verbo falar é regido pelas seguintes preposições:

a — A Maria falou [aos amigos]/-lhes.

com — A Maria falou com [o porteiro]/ele.

de — A Maria falou-me de ti.

em — A Maria falou-me em ti.

Pode ainda o verbo falar reger preposições como sobre, para e por:

a) Falou sobre as suas férias.

b) Falou para os amigos.

c) Falou pelo irmão.

Se consultarmos o Dicionário Terminológico (DT; Ministério da Educação de Portugal), verificamos que os complementos de verbos introduzidos por diferentes preposições são denominados de complementos oblíquos. Estes complementos são seleccionados pelo verbo e podem assumir a forma de grupo preposicional, e neste caso não são substituíveis pelo pronome pessoal na forma dativa lhe/ lhes (exemplos do DT):

(ii) O João gosta [de bolos].

*O João gosta-lhes.

O pronome dativo lhe substitui muitas vezes um complemento indirecto introduzido pela preposição a, conforme o exemplo, em que o verbo falar significa «cumprimentar», tendo regência com a preposição a:

Eu falei à Ana.

Eu falei-lhe.

No entanto, quando falar tem regência construída com a preposição com, assumindo as acepções de «dirigir-se a (alguém»), «dialogar», «conversar», acontece que o complemento oblíquo pode ser substituído pelo pronome lhe:

Eu falei com o João.

Eu falei com ele.

Eu falei-lhe.

Trata-se de uma possibilidade que Evanildo Bechara descreve na Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora, Lucerna, 2002, pág. 181) — pronomes pessoais átonos podem substituir aquilo a que o gramático chama adjuntos adverbiais,1 por exemplo, em casos como o de ralhar:

[...] Ralhar com ele — Ralhou-lhe

Outros verbos que admitem lhe em substituição dos seus complementos oblíquos são bater e fugir: «bater nele»/«bater-lhe»; ««fugir dele»/«fugir-lhe».

1 Na mesma obra (idem, pág. 419/421), E. Bechara refere-se a estes constituintes preposicionados como complementos relativos, embora assinale que «[...] muitos [estudiosos] preferem considerar tais termos como adjuntos circunstanciais ou adverbiais» (idem, pág. 421).

Carla Viana
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo