A construção do verbo atormentar com o pronome lhe tem registos de uso e parece ser aceitável.
De uma forma geral, tanto dicionários generalista como dicionários de verbos descrevem o verbo atormentar como sendo transitivo direto (1) ou como intransitivo (2):
(1) «O exame atormentava os alunos.»
(2) «A pressão do sucesso atormenta.»
O verbo pode também ser usado como pronominal:
(3) «Ele atormenta-se constantemente.»
Não obstante, encontramos também registo de usos1 nos quais o verbo atormentar surge combinado com o pronome lhe, em construções como (4):
(4) «Mas não a compreendiam nem adivinhavam sequer a angústia que lhe atormentava a alma.» António Guedes de Amorim, A Máscara e o Destino.
Note-se, neste caso de uso, não é evidente que a sintaxe do verbo seja transitiva direta e indireta, pois é possível que o pronome lhe corresponda à pronominalização do complemento do nome. Deste modo, a construção equivalente à que surge em (4) seria:
(4a) «Mas não a compreendiam nem adivinhavam sequer a angústia que atormentava a alma da pessoa x.»
Talvez esta possibilidade interpretativa contribua para explicar por que razão parece verificar-se uma aceitabilidade duvidosa da frase (5) ao passo que a frase (6) parece ser aceitável:
(5) «?As crianças atormentavam a paciência à educadora.»
(6) «As crianças atormentavam-lhe a paciência.»
Fica aqui, deste modo, a possibilidade de a frase (6) não equivaler a (5) mas sim a (7), o que indicaria que o verbo atormentar se mantém transitivo direto:
(7) «As crianças atormentavam a paciência da educadora.»
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1. Consultámos o Corpus do Português, de Mark Davies.