O plural de eleitor-fantasma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
O plural de eleitor-fantasma

Como não encontro no Ciberdúvidas uma resposta clara sobre o plural dos nomes compostos, nomeadamente os que integram dois substantivos, gostaria de saber: eleitores-fantasma, ou eleitores-fantasmas? Empresas-fantasma, ou empresas-fantasmas? Cidades-fantasma, ou cidades-fantasmas? Crianças-soldado ou crianças-soldados?

É que ando a ler e a ouvir na comunicação social portuguesa as duas formas, indiscriminadamente...

Muito obrigado.

João Carlos Amorim Reformado Lisboa, Portugal 6K

A questão é pertinente, já que o problema que se coloca não é simplesmente identificar o tipo de constituintes envolvidos (substantivo-substantivo, substantivo-adjectivo, adjectivo-adjectivo e assim por diante), mas, sim, o tipo de estrutura interna e de relação entre os elementos dos compostos.

No tratamento dos compostos morfossintácticos, podemos identificar diferentes comportamentos (que não serão analisados aqui na sua totalidade), os quais têm reflexo na forma como é feita a flexão, interessando-nos distinguir, para esta questão em particular, dois tipos:

a) compostos constituídos por dois substantivos, cuja estrutura interna corresponde a uma estrutura de adjunção, ou seja, em que o núcleo do composto surge à esquerda, e o elemento da direita se comporta como um adjunto, dando informação adicional sobre o núcleo; neste caso, a flexão é feita apenas no núcleo do composto e é precisamente nesse caso que se inscrevem todos os exemplos que dá, pelo que a forma corre{#c|}ta do plural destes compostos será eleitores-fantasma, empresas-fantasma, cidades-fantasma e crianças-soldado;

b) compostos que podem ser constituídos por substantivos ou adjectivos, designados como estruturas de conjunção ou como compostos coordenados, isto é, cuja estrutura interna é uma estrutura de coordenação, não sendo possível identificar um núcleo; assim, no plural, ambos os elementos recebem a marca de flexão em número, sendo disso exemplo compostos como autor-compositor (sequência de dois substantivos), cuja forma do plural é autores-compositores, ou surdo-mudo (formado por dois adjectivos), cujo plural é surdos-mudos.

Note-se que, em análises gramaticais mais recentes, tem vindo a distinguir-se simplesmente compostos endocêntricos (ou seja, com núcleo) de compostos exocêntricos (ou seja, sem núcleo).

É importante referir que, pese embora esta justificação teórica para diferentes comportamentos dos compostos quanto à flexão, dicionários de referência, como o Houaiss, bem como vocabulários oficiais, como os do ILTEC ou da Academia Brasileira de Letras, registam já dois plurais possíveis para os casos apresentados em b); vejam-se exemplos como empresas-fantasmas/empresa-fantasma, cidades-dormitórios/cidades-dormitório, cidades-Estados/cidades-Estado, cidades-satélites/cidades-satélite

É um facto que, no que concerne a análise morfológica estrita, a flexão correcta deverá ser a acima indicada; mas haverá eventualmente uma mudança em curso e, como sabemos, aquilo que é erro num momento, por uso generalizado dos falantes, pode tornar-se posteriormente norma...

Bibliografia consultada:

MATEUS et alii (2003). Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho.

 

 

Anaísa Gordino
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Léxico; Morfologia Flexional Campos Linguísticos: Plural (nomes e adjectivos); Composição