O emprego dos pronomes de tratamento você/vocês - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O emprego dos pronomes de tratamento você/vocês

Minha pergunta alude ao emprego dos pronomes de tratamento você/vocês. Já me venho questionando há bastante tempo sobre a mistura que os brasileiros fazemos de você com os clíticos correspondentes a tu [te, ti (com pouca freqüência), contigo]. Cheguei inclusive a invejar os portugueses, e a elogiá-los, pelo uso conseqüente de tu (e seus derivados) e você [se, si, consigo, o(s), a(s), lhe(s)]. Contudo, tenho observado que também em Portugal se faz essa "confusão pronominal", quando se usa vocês e, em seguida, pronomes que se referem à segunda pessoa do plural — vós.

Imagino que seja mais fácil explicar através de exemplos. No Brasil: «O que "você" vai fazer hoje à noite, querida? Posso ir(-)"te" visitar?» (por «Posso ir visitá-la?»). Em Portugal (recortes de uma mensagem enviada por um português e publicada pelo Ciberdúvidas): «Antes de mais, os meus parabéns pela continuação do "vosso" sítio e pela ajuda...» (por «do "seu" sítio»); ao final da mesma postagem: «Agradeço antecipadamente qualquer luz que "me possam" dar» (ou seja, empregou vocês).*

Peço-lhes que me esclareçam: como se posiciona a norma-padrão a respeito disso? Como se chamaria esse fenômeno gramatical? Há algo a que possamos chamar "Concordância Pronominal"? De antemão o meu muito obrigado.

* Ao citar os exemplos acima, não quis generalizar, pois sei que há um grande número pessoas que usam as formas regulares.

Gilson Celerino Estudante Hanôver, Alemanha 14K

De facto, o uso do pronome pessoal tónico vocês, que substituiu o vós como pronome nominativo de segunda pessoa do plural no falar de grande parte dos portugueses, obrigaria, segundo, as regras da concordância sintáctica prescritas pela norma, ao subsequente uso dos pronomes átonos de objecto directo -os, de objecto indirecto -lhes, em vez do pronome de segunda pessoa -vos; ou dos pronomes possessivos seu/seus, em vez de vosso/vossos.

Assim teríamos:

«Vocês são simpáticos. Por isso, eu ajudo-os

«Como é que vocês estão? Apresento-lhes a Maria.»

«Vocês fizeram o seu trabalho de casa?»


E não:

«Vocês são simpáticos. Por isso, eu ajudo-vos

«Como é que vocês estão? Apresento-vos a Maria.»

«Vocês fizeram o vosso trabalho de casa?»

No entanto, o uso dos falantes tem vindo a privilegiar as pronomes átonos e possessivos de segunda pessoa sintáctica [vos, vosso(s)/a(s)] juntamente com a forma nominativa vocês. Este facto é ainda mais visível no caso dos possessivos. Frases como «Vocês fizeram o seu trabalho de casa» são hoje vistas pelos falantes como frases estranhas. Isto mesmo diz João Peres, professor da Universidade de Lisboa que se dedica ao estudo destas questões. Num artigo publicado na Revista Internacional da Língua Portuguesa (“Convenções e Desvios na Língua Portuguesa”, Revista Internacional de Língua Portuguesa 16, pp. 9-16.), João Peres refere que nestes casos «cadeias de concordância em pessoa em que intervêm pronomes pessoais e possessivos e em que a pessoa do enunciatário — digamos, a segunda pessoa pragmática — é a segunda pessoa do plural», «o uso há muito ultrapassou as convenções por que alguns continuam a pugnar», classificando esta convenção como uma «convenção fraca».

CfPronomes de Tratamento + Protocolo: Tu, Você, Senhor... + Pronomes de tratamento + Quão cortês é você? O pronome de tratamento vocês em Português Europeu + 98 pronomes de tratamento + Emprego dos pronomes de tratamento + Formas de Tratamento e Endereçamento

 

Nuno Carvalho
Campos Linguísticos: Coesão/Coerência; Concordância