O demonstrativo o numa frase de Júlio Dinis (II) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
O demonstrativo o numa frase de Júlio Dinis (II)

Quanto à resposta dada à consulta de Fernando Gaspar, em 30/9/2019, inclino-me a ficar com a impressão do consulente, em detrimento do parecer da consultora.

Se não, vejamos: o pronome o, a meu juízo, deve retomar um termo ou uma oração já referida, mas a oração já referida, no caso em tela, é «a irritação ditava-lhe uma violenta resposta», e não «dar uma violenta resposta» (a análise se deve fazer com o que está escrito, e não com ilações; do contrário, cada um poderia ter a sua e usar o pronome que lhe interessasse). Assim sendo, é impossível a substituição por causa do risco de ilogicidade. A forma lha se impõe, então; sendo a o pronome vicário de «violenta resposta».

Distração de Júlio Diniz.

Fernando Bueno Engenheiro Belo Horizonte, Brasil 48

Concordamos que a interpretação apresentada pelo consulente é válida e é possível. Todavia, ela tem como consequência assumir que Júlio Dinis errou. Não obstante o erro ser algo tão humano quanto, com toda a certeza, o foi Júlio Dinis, julgamos que é possível dar à frase uma interpretação distinta que a vê como um enunciado correto.

Tomemos, de novo, a frase (1) e nela o clítico o (amalgamado com lhe):

(1) «A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já lho não permitia a consciência.» (Júlio DinisA Morgadinha dos Canaviais. Porto Editora, p. 448)

Relativamente à análise do pronome, consideremos os seguintes aspetos:

(i) o pronome clítico o é um pronome demonstrativo invariável, que é correlato da forma forte do demonstrativo isso, pelo que não pode assumir flexões no feminino ou no plural (não estamos perante a forma acusativa do pronome pessoal de terceira pessoa que, essa sim, flexiona em género e número);

(ii) o pronome clítico demonstrativo o denota um predicado e não uma entidade e «ocorre com verbos que selecionam frases por objecto direto» (Matos em Mateus, Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, p. 837). Na mesma gramática, a autora apresenta como exemplos desta realização frases como:

            (2) «Que era culpado, ele não o declarou abertamente.»

            (3) «Não havia provas concludentes para incriminar os arguidos e a juíza sabia-o perfeitamente.»

            Também em Cunha e Cintra encontramos descrita esta situação: «quando no singular masculino, equivale a isto, isso, aquilo, e exerce as funções de objecto direto ou de predicativo» (Nova Gramática do Português. Edições Sá da Costa, p. 340). Aqui, os autores apresentam como exemplo:

            (4) «Seguia-a com o olhar sem me atrever a evitá-lo.» (Arnaldo Santos, Prosas, p. 125)

(iii) o pronome clítico demonstrativo o pode referir-se «a um substantivo, a um adjectivo, ao sentido geral de uma frase ou de um termo dela» (Cunha e Cintra, ibidem).

Assim sendo, se considerarmos que, na frase de Júlio Dinis, o pronome clítico retoma o sentido de toda a oração anterior, como se observa na adaptação que se segue:

 (1a) «A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já a consciência não permitia a X que a irritação lhe ditasse uma resposta violenta.»1

julgo que poderemos concluir que o clítico o pode ser interpretado como um pronome demonstrativo, pelo que a forma do singular masculino é a única possível. Deste modo, podemos concluir que a opção de Júlio Dinis está correta.

 

1. Esta será a formulação justa para a substituição e não a que foi apresentada em resposta anterior, correção feita a partir da sugestão do consulente.

Carla Marques
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Anáfora/Co-Referência