A combinação pronominal lho em Júlio Dinis - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
A combinação pronominal lho em Júlio Dinis

Num artigo do consultório deparou-se-me a citação seguinte:

«A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já lho não permitia a consciência.» (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais. 1860).

Esta frase suscitou-me a dúvida seguinte cujo esclarecimento antecipadamente agradeço.

Pergunto se, corretamente, não deverá antes escrever-se: «…mas já não lha permitia a consciência», isto é, escrever «lha» em vez de «lho», porquanto na 2.ª oração estamos referindo-nos à violenta resposta.

Fernando Gaspar Funcionário Público Lisboa, Portugal 320

Não erra, na sua frase, o escritor Júlio Dinis. Para interpretarmos devidamente a construção presente na frase é necessário recuperar um excerto um pouco mais longo:

(1) «O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse responder a Augusto. A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já lho não permitia a consciência.» (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais. Porto Editora, p. 448)

Consideramos que a forma lho resulta da contração do pronome pessoal lhe, que retoma o nome «conselheiro» com o pronome demonstrativo neutro o, que representa não um grupo nominal, mas a oração «dar uma resposta violenta». Assim, a frase sem  a forma lho ficaria semelhante a (2):

(2) «A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas a consciência já não permitia ao conselheiro dar uma violenta resposta.»

É evidente que se o autor tivesse optado por retomar apenas o grupo nominal «uma violenta resposta», o pronome contraído teria a forma lha, mas não parece ter sido essa a opção de Júlio Dinis.

Disponha sempre!

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Anáfora/Co-Referência