O uso do pronome o numa frase do livro Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
O uso do pronome o numa frase
do livro Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares

Comprei o livro Cebola Crua com Sal e Broa de Miguel Sousa Tavares. Na página 53 encontrei as frases seguintes:

«A liberdade foi, de facto, a minha grande escola de vida. Comecei a aprendê-lo por mim mesmo, nos Jesuítas e contra eles, como já contei. E, simultaneamente, aprendi-o em casa dos meus pais e com os meus pais.»

[...] o autor fez um erro em escrever «comecei a aprendê-lo (a liberdade) e aprendi-o (a liberdade) em casa dos meus pais...», ou existe outro motivo para utilizar a forma masculina?

Obrigado.

Johan de Rie Reformado Mértola, Portugal 886

A palavra o pode ser um pronome pessoal átono ou um pronome demonstrativo.

A forma o do pronome pessoal corresponde à 3.ª pessoa do singular, usada na função de complemento direto. Este pronome pessoal, na frase, refere-se a uma expressão, normalmente um nome ou um grupo nominal, que surge antes na frase, como se verifica em (1):

(1) «O João chegou. Vi-o ontem.» [o desempenha a função sintática de complemento direto do verbo ver e refere-se a «o João»]

Quando o é um pronome demonstrativo com um valor equivalente a isto, isso, aquilo, usa-se apenas na 3.ª pessoa do singular e tem a capacidade de se referir a uma frase/oração na sua totalidade ou a parte dela, como evidenciam (2) e (3):

(2) «Esteve todo o dia a dormir, mas ocultou-o porque poderia não ser bem visto.» [o pronome demonstrativo o retoma a totalidade da primeira oração: «ocultou o facto de ter estado todo o dia a dormir»]

(3) «Com aquele livro aprendeu a fazer sopa de legumes. Experimentou-o no dia seguinte.» [o retoma parte da frase anterior: «Experimentou fazer sopa de legumes no dia seguinte»]

Esta mesma utilização é explicitada por Cunha e Cintra quando afirmam: «quando, no singular masculino, [o pronome demonstrativo o] equivale a isto, isso, aquilo, e exerce as funções de objecto directo ou de predicativo, referindo-se a um substantivo, a um adjectivo, ao sentido geral de uma frase ou de um termo dela: «O valor de uma desilusão, sabia-o ela.» (Miguel Torga [...]); «Seguia-a com o olhar sem me atrever a evitá-lo.» (Arnaldo Santos [...]) (Nova Gramática do Português Contemporâneo, pp. 340-341; mantém-se a ortografia do original)

Nas frases apresentadas pelo consulente, é possível considerar que o autor utiliza o pronome demonstrativo o, que retoma a frase anterior, como se vê numa adaptação das frases originais do texto:

(4) «Comecei a aprender que a liberdade era a minha grande escola de vida por mim, nos Jesuítas e contra eles. Aprendi que a liberdade era a minha grande escola de vida em casa dos meus pais e com os meus pais.»

A utilização do pronome demonstrativo o traz às frases uma significação diferente daquela que estas teriam se tivesse sido utilizado o pronome pessoal a, que apenas retomaria o nome liberdade.

Carla Marques
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: pronome
Campos Linguísticos: Anáfora/Co-Referência