«Nunca/jamais... ninguém» e «nem... nada» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Nunca/jamais... ninguém» e «nem... nada»

É de meu entendimento que uma oração negativa é definida: + ou pela negação do verbo (ou locução verbal) da oração através de um advérbio de negação como “não”, + ou pela presença de um “sujeito negativo” (isto é, um sujeito cujo núcleo ou é um pronome indefinido substantivo negativo como “ninguém”, ou é qualificado por um pronome indefinido adjetivo negativo como em “nenhuma pessoa”). Também sei que essas opções são mutualmente exclusivas, e não podem ocorrer simultaneamente em uma oração. (Isto é, não se deve dizer «Ninguém não foi», e sim «Ninguém foi».)

Além disso, sei que todos os pronomes indefinidos presentes no predicado de uma oração negativa (porém não em orações subordinadas de uma oração negativa) devem ser obrigatoriamente negativos. (Não se deve dizer «Eu não fiz alguma coisa para alguém», e sim «Eu não fiz nada para ninguém».)

A primeira questão é: “nunca” e “jamais” são considerados advérbios de negação (que tornam a oração negativa)? Isto é, quais das seguintes frases estão corretas? + «Eu nunca amei alguém.» + «Eu nunca amei ninguém.» + «Eu jamais amarei alguém.» + «Eu jamais amarei ninguém.»

Uma outra dúvida relacionada é se a presença de “nem” em um sujeito torna a oração negativa. Isto é, quais das seguintes frases estão corretas? + «Nem a Maria fez alguma coisa para o meu aniversário.» + «Nem a Maria fez nada para o meu aniversário.»

Muito obrigado desde já pela atenção.

Pedro M. Zamboni Estudante Bauru, Brasil 303

A negação pode ser introduzida pelos operadores de negação não, nem, sem. Pode também ser introduzida pelas chamadas palavras autonegativas, como nunca e jamais, que são advérbios de tempo e que, ao integrarem a frase, negam um dado intervalo de tempo ou um conjunto de intervalos de tempo1:

(1) «Ele nunca leu este livro.» (= em nenhum intervalo de tempo)

(2) «Ele jamais lerá este livro.» (= em nenhum intervalo de tempo)

Em português, existe a possibilidade de concordância negativa, também designada dupla negação, que se caracteriza pela ocorrência de dois constituintes negativos na mesma frase que, todavia, não se anulam, como acontece em (3):

(3) «Eu não encontrei ninguém

A concordância negativa está marcada pela dependência que ninguém tem relativamente a não, a qual fica clara na agramaticalidade gerada pela ausência deste último constituinte em (4). Desta forma, fica claro que a concordância negativa implica a colocação de um constituinte negativo em posição pós-verbal e de um constituinte negativo em posição pré-verbal:

(4) «*Eu encontrei ninguém.» (vs. «Eu não encontrei ninguém.»)

Os elementos que entram em concordância negativa são constituintes de negação existencial, como ninguém, nada, nunca:

(5) «Eu não encontrei ninguém

(6) «Eu não encontrei nada

(7) «Eu não lhe telefonei nunca

No âmbito desta questão gramatical e do ponto de vista normativo, a concordância negativa implica a presença de dois constituintes negativos na frase, como se observa em (5), (6) e (7).  Por esta razão, a construção introduzida pelo operador nem na frase apresentada pelo consulente terá preferencialmente um segundo membro negativo:

(8) «Nem a Maria fez nada...»

Não obstante, em certos casos de concordância negativa, como afirma João Peres, «a variação entre uma expressão negativa como ninguém e a correspondente expressão positiva alguém é inteiramente livre» (in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 490). Assim sendo, as frases aqui numeradas como (9) e (10) são ambas aceitáveis.

(9) «Eu nunca amei alguém

(10) «Eu nunca amei ninguém

Não obstante, julgo que com o operador jamais apenas a frase (11) é aceitável:

(11) «Eu jamais amarei alguém.»

Não encontrei uma descrição sintático-semântica relativa ao comportamento deste advérbio quando introduz construções negativas, mas, se observarmos uma amostra retirada do corpus CRPC, verificamos que as construções com jamais surgem com o pronome positivo (alguém) e não com o negativo (ninguém).

Disponha sempre!

*assinala a agramaticalidade da frase.

1. Para uma reflexão mais aprofundada sobre a negação, cf. . Cf. Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 461-498. 

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: advérbio
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe