Com efeito, na frase transcrita em (1), um excerto do Discurso de Lídia Jorge no dia 10 de junho de 2025, identificamos uma estrutura de clivagem:
(1) «Em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.»
A estrutura de clivagem ou de foco permite pôr em destaque um elemento da frase, por meio do uso de estruturas como «é que»1. Este tipo de construção coloca o foco sobre constituintes como o sujeito (2), o complemento direto (3), o complemento indireto (4), entre outros:
(2) «O João é que fez o trabalho.»
(3) «Este trabalho é que eu gostava de ler.»
(4) «Ao Rui é que ofereceram este prémio.»
A sequência «é que», responsável pela clivagem, é formada pelo verbo ser seguido do complementador que. Não se trata, portanto, de uma construção relativa, uma vez que a palavra que não é um pronome relativo. Esta interpretação afasta a possibilidade de estarmos perante um constituinte com função de modificador do nome.
Em síntese, na frase em questão, identificamos uma estrutura clivada que tem como função colocar o foco sobre o sujeito da oração, numa estrutura que corresponde à seguinte oração simples:
(5) «[…] a data da morte de um poeta protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.»
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1. Para mais informações sobre as estruturas clivadas, cf. Textos relacionados e Martins e Lobo in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2617 e ss.