DÚVIDAS

Orações relativas não canónicas: «aquilo que é...»

Tenho notado que há um hábito muito comum e cada vez mais generalizado de utilização da expressões «aquilo que é/daquilo que é/ aquilo que são/daquilo que são» principalmente em contexto de comentário televisivo.

Exemplos: «[Aquilo que é] a origem do conflito…..», «A origem d[aquilo que é] a vida….», «Não sabemos [aquilo que são] as intenções do Presidente….», «Estamos a par [daquilo que é] o impacto desta guerra», «Estamos conscientes d[aquilo que é] a devastação provocada….».

Poderíamos até complicar mais: «[Aquilo que é] a origem d[aquilo que é] este conflito».

Todos estes «aquilo que é» são perfeitamente suprimíveis das respetivas frases: «A origem da vida…», «Não sabemos as intenções do Presidente», «Estamos a par do impacto desta guerra», «Estamos conscientes da devastação provocada».

Penso que o recurso a esta irritante expressão se deve ao facto de constituir uma espécie de muleta de linguagem, no sentido de dar mais tempo ao orador para pensar no que vai dizer a seguir, o que se compreende (similarmente ao uso de outras muletas mais óbvias como “â” ou “portanto”), muleta essa perfeitamente dispensável.

De qualquer modo gostaria de saber se semanticamente a expressão acrescenta algo (como uma espécie de focalização ou clivagem no sentido de destacar um dos elementos da frase) e gostaria também de saber como classificar essas orações do ponto de vista sintático.

Para ilustrar, vejamos o caso concreto da seguinte frase simples:

«A origem da vida é um mistério.»

Transformando-a na seguinte frase complexa:

«Aquilo que é a origem da vida é um mistério.»

Ficamos com uma oração substantiva relativa sem antecedente (com a função de sujeito) seguida da respetiva subordinante? Ou, contrariamente, devemos assumir que continuamos perante uma frase simples que foi “complexificada” por um elemento discursivo redundante típico da oralidade?

Por outro lado, parece-me que por vezes estas orações artificiais são substantivas completivas, noutros casos substantivas relativas, ou até ponho a hipótese de serem adjetivas relativas, mas sempre perfeitamente dispensáveis.

Gostaria de ter a vossa preciosa ajuda para esta questão, aproveitando para desejar um bom início de terceiro período letivo a toda a equipa do Ciberdúvidas, a quem agradeço a paciência.

Resposta

A regularidade nos usos de uma determinada estrutura pode indicar que estamos perante um modismo, ou seja, uma construção cuja frequência de uso a torna saliente a determinada altura e que se caracteriza pela sua efemeridade. Desta forma, o uso de «aquilo que» poderá integrar-se neste âmbito, o que aqui não teremos forma de comprovar de forma inequívoca, sendo apenas possível falar de uma tendência nos usos orais da língua.  

Relativamente à estrutura apresentada pelo consulente, poderemos dizer que se trata de uma construção de clivagem, equiparada às estruturas pseudoclivadas. Estas construções visam colocar em relevo um determinado constituinte da frase e caracterizam-se por iniciar por uma palavra relativa, que abre uma oração a seguir à qual surge o verbo ser seguido do constituinte clivado, como se observa em (1):

(1) «O que o João fez foi o trabalho de inglês.»

A frase (1) corresponde à frase simples, sem clivagem, apresentada em (2):

(2) «O João fez o trabalho de inglês.»

Neste caso, o constituinte clivado é o complemento direto «o trabalho de inglês».

Note-se que a frase apresentada pelo consulente não se inicia pela locução relativa «o que», mas pela estrutura formada pelo pronome demonstrativo aquilo seguido do relativo que, uma construção que, em termos semântico-pragmáticos produz um efeito similar à analisada em (1).

Há várias interpretações sintáticas para este tipo de construções. Poderemos aqui considerá-las relativas não canónicas1, porque, embora constituam uma oração introduzida por uma palavra relativa, não efetuam uma ação de explicação ou de restrição típicas das orações subordinadas relativas. Estas construções têm sobretudo efeitos enunciativos que permitem que uma dada expressão referencial surja duas vezes na mesma frase. No caso da frase (1), referem-se à mesma entidade «o que» e «o trabalho de inglês»; no caso da frase apresentada pelo consulente, têm a mesma referência «aquilo que» e «um mistério».

Disponha sempre!

 

1. cf. Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 2127.

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