«Esqueceu-me comprar o pão» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
«Esqueceu-me comprar o pão»

Em certas zonas do país usa-se em linguagem corrente expressões como «esqueceu-se-me», ou «fugiu-se-me», como por exemplo: «Esqueceu-se-me de comprar pão», em vez de «Esqueci-me de comprar pão». Em que conjugação / outra classificação gramatical é que estas formas se inserem, se nalguma?

Penso que uma conjugação reflexa seria  «Esqueci-me, esqueceste-te, esqueceu-se, ...». Se assim é, qual é a função do me no exemplo acima?

Obrigado!

André Duarte Investigador Coimbra, Portugal 301

As construções em causa têm uso, conforme o consulente atesta, mas, tal como se apresentam, dificilmente se aceitam no contexto da norma-padrão. Procuremos justificar este juízo:

1. É possível que certos falantes produzam  uma sequência «esqueceu-se-me de fazer alguma coisa», mas as formas tidas como corretas são «esqueceu-me comprar o pão» e «esqueceu-me de comprar o pão», embora esta última pareça menos apreciada pela escrita literária, conforme descreve a Nova Gramática do Português Contemporâneo (p. 522) de Celso Cunha e Lindley Cintra. A construção «alguma coisa esquecer a alguém » é uma construção alternativa a «alguém esquecer alguma coisa» e «alguém esquecer-se de alguma coisa» (no Brasil, também é possível «alguém esquecer de alguma coisa», apesar da censura normativa – cf. ibidem). Consiste em tratar o verbo esquecer como o verbo agradar, que se usa de acordo com o esquema «alguma coisa agradar a alguém»: deste modo, assim como se afirma «agradou-me comprar pão», também se diz «esqueceu-me comprar pão», sem criar problemas à análise gramatical convencional.

Note-se, porém, que a construção com preposição – «esquecer a alguém de alguma coisa» –, que parece impessoal, já é de aceitabilidade mais discutível, pela dificuldade de a analisar de maneira coerente, de acordo com as regras sintáticas da língua padronizada. É ainda mais difícil aceitar a construção em que esquecer  ocorre não só impessoalmente mas também como verbo reflexo, segundo o esquema «esquecer-se a alguém de alguma coisa», que está subjacente a «esqueceu-se-me de comprar pão».

2. «Fugiu-se-me» é igualmente construção não aceitável, porque fugir muito raramente tem conjugação pronominal à luz da norma-padrão. «O gato fugiu-me» é sequência correta, mas «o gato fugiu-se-me» é provavelmente menos habitual, para não dizer inusitado. No entanto, é possível compreender – o que não significa aceitar – que «fugiu-se-me» apareça, afinal, por analogia com escapar-se, verbo que é, este sim, compatível com a conjugação pronominal reflexa. Com este último verbo, é, portanto, correto dizer «escapou-se-me», sendo -me uma forma de indicar que quem fala foi de alguma maneira afetado pela situação ou evento referidos pela frase.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Funções sintácticas