DÚVIDAS

O itálico em palavras que não são estrangeirismos
Por diversas vezes, a meio de um texto, deparamo-nos com um vocábulo em itálico que não resulta, por exemplo, de algum estrangeirismo. Muitas vezes em pronomes pessoais, mas também em advérbios e conjugações verbais. Qual a razão subjacente a essa prática? Nesse sentido deixo aqui três exemplos: «Será assim tão terrível um homem querer mais juventude, mais prazer? Além disso, Walter não é corrupto - não é exactamente ("exactamente" em itálico) corrupto». Michael Cunningham, "As Horas". Lisboa: Gradiva, 9.ª edição, 2004, p. 23. «Nunca havia violações da segurança. Informações mesmo ("mesmo" em itálico) secretas ele nunca ouvia nem pedia para ouvir.» Saul Bellow, "Ravelstein". Lisboa: Teorema, 2001, p. 61. "Por detrás de um aglomerado baixo de nuvens de poluição, o Sol era um disco de prata suja, pequeno e exacto. – Hoje tens tu de cuidar de mim ("mim" em itálico) – disse Mary por entre um bocejo, apoiando de novo a cabeça no ombro de Colin. – Então ontem foste tu a cuidar de mim ("mim" em itálico)? – perguntou ele, acariciando-lhe a nuca.» Ian McEwan, "Estranha Sedução". Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, 1998, p. 45. Obrigado!
"Cheio de nove horas", mais uma vez
Com relação à origem da expressão "Cheio de Nove Horas", questionada por Márcio J. C. Coimbra, em 14.01.2000, acredito que seria interessante nos reportarmos à explicação dada por Luís da Câmara Cascudo em seu livro "Locuções Tradicionais no Brasil" (Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1986, pág. 48). Na obra citada, encontramos as seguintes observações para a expressão "Cheio de Nove Horas": "Na noite de 25 de setembro de 1968, o meu velho amigo João Baptista de Medeiros veio ver-me, acompanhado da filha Teresa e do genro, dr. João de Souza Leão Cavalcanti, flor de velhas roseiras pernambucanas. Visita agradável, cativante, afetuosa. Conversa viva, variada, evocadora. Súbito, olhando o relógio de pulso, dona Teresa, sob o pretexto de fazer-me descansar, apressou a saída indesejável. Explica-me: "O Senhor precisa repousar e já são nove horas!" Nove horas era a razão suficiente, indiscutível, para finalizar tão amistosa convivência. Foi, realmente, a hora clássica do séc. XIX, regulando o final das visitas, ditando o momento das despedidas. (...) Às nove horas caía o pano sobre a representação do quotidiano. Apenas os boêmios, notívagos impenitentes, teimavam em afrontar os perigos da noite, da polícia, dos ladrões e capoeiras esfaimados. (...) Criou-se no século XIX a figura sestrosa, cerimoniática, meticulosa, do "Cheio de Nove Horas", criatura infalível em citar regras, restrições, limites às alegrias dos outros, memorialista dos pecados alheios, fiel lembrete aos códigos e regulamentações, imperativas e dispensáveis, complicando as cousas simples." Cf. Cheio de nove horas, de novo.
A diferença entre «fiquei sabendo» e soube
Como tenho interês [sic] pela história da língua portuguesa, de quando em vez, venho ler artigos a este maravilhoso sítio. Deparei-me com um problema difícil de resolver, por causa do qual meu professor ficou frustrado. Qual é a diferença em nuance entre fiquei sabendo e soube. Esta pergunta pode-se reduzir à diferença entre ficar + gerúndio e o mesmo verbo simples. Será que o verbo ficar exprime não só transição de estado mas também uma açcão [sic}] duradoura? Gostaria de saber como as frases parecidas a seguir se distinguem uma da outra. «Esteve (está) desconsciente [sic]durante dois minutos.» «Fiqou [sic] (fica) desconsciente [sic] durante dois minutos» Incidentalmente, percebo que ficar se parece com o verbo espanhol quedarse no aspecto verbal e no seu uso, conforme o que disse uma amiga. Agradeceria muito se pudesse resolver este problema. Desejo de coração que este sítio continue a ser luz de esperança para todos. Muito obrigado.
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