A diferença entre «fiquei sabendo» e soube - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A diferença entre «fiquei sabendo» e soube

Como tenho interês [sic] pela história da língua portuguesa, de quando em vez, venho ler artigos a este maravilhoso sítio. Deparei-me com um problema difícil de resolver, por causa do qual meu professor ficou frustrado. Qual é a diferença em nuance entre fiquei sabendo e soube. Esta pergunta pode-se reduzir à diferença entre ficar + gerúndio e o mesmo verbo simples. Será que o verbo ficar exprime não só transição de estado mas também uma açcão [sic}] duradoura? Gostaria de saber como as frases parecidas a seguir se distinguem uma da outra.

«Esteve (está) desconsciente [sic]durante dois minutos.»

«Fiqou [sic] (fica) desconsciente [sic] durante dois minutos»

Incidentalmente, percebo que ficar se parece com o verbo espanhol quedarse no aspecto verbal e no seu uso, conforme o que disse uma amiga. Agradeceria muito se pudesse resolver este problema.

Desejo de coração que este sítio continue a ser luz de esperança para todos. Muito obrigado.

Shin Matoba Estudante Nagóia, Japão 6K

Antes de mais, queremos felicitar o consulente pelo seu excelente português, pois, apesar de alguns erros ortográficos (*interês > interesse; *açcão > acção; * desconsciente> inconsciente; *fiqou> ficou), revela um óptimo conhecimento e maturação da língua a nível sintáctico, que é um dos aspectos mais difíceis de dominar para um não nativo.

Agradecemos, ainda, o apreço manifestado pelo trabalho do Ciberdúvidas.

Comecemos, agora, a desenvolver a resposta às duas questões que nos foram apresentadas:

(i) Qual a diferença entre «fiquei sabendo»1 e «soube»?
(ii) Qual a diferença entre «esteve inconsciente» e «ficou inconsciente»?

Trata-se de duas questões distintas, visto o verbo ficar ter funções sintácticas diferentes em (i) e (ii). Em (i) é um verbo auxiliar (de aspecto), enquanto em (ii) é um verbo copulativo.

Respondendo à primeira questão, a nuance de significado é mínima. Basicamente, são usadas duas construções sintácticas diferentes para dizer a mesma coisa. A principal diferença semântica prende-se com o emprego do verbo auxiliar ficar, ou seja, o pretérito perfeito simples não denota qualquer outra interpretação subjacente, enquanto a construção ficar + gerúndio, «ficou sabendo», pode ser interpretada como «soube, apesar de não ser suposto vir a saber», ou, «soube quase que inesperadamente».

Relativamente à segunda questão, na estrutura em que se empregam, ambos os verbos, estar e ficar, são verbos copulativos estativos, mas têm valores aspectuais diferentes: estar exprime continuidade de um estado, ficar indica a passagem a esse estado e/ou a permanência no mesmo. Cunha e Cintra  (2005: 134) classificam a expressão do verbos estar e ficar, respectivamente,  de «estado transitório» e de «mudança de estado», apresentando os seguintes exemplos:

«b) estado transitório:

O velho esteve entre a vida e a morte durante uma semana.
                     (Castro Soromenho, TM, 236.)
Você não anda um pouco fatigado pelo excesso de trabalho?
                     (Carlos Drummond de Andrade, CA, 139.)

c) mudança de estado:

Receava que eu me tornasse ingrato.
                     (Augusto Abelaira, NC, 14.)

Amaro ficou muito perturbado.
                     (Érico Veríssimo, LS, 137.)»

Simplificando estas noções ao máximo, e quase que intuitivamente, quando se fala em «estado transitório», dá-se ênfase à continuidade do estado ou mesmo da situação actual, para a qual se transitou, por oposição ao estado anterior contínuo, descrito com o verbo copulativo estar: «esteve inconsciente — agora já não está», ao passo que com o conceito «mudança de estado» dá-se ênfase ao estado que resultou da mudança, ou seja, ao estado descrito pelo verbo ficar: «ficou inconsciente — antes não estava».

A escolha de uma ou outra forma verbal pode também estar relacionada com a informação acerca do factor que provocou o resultado da situação. Por exemplo, quando se diz «ele esteve inconsciente», não se sabe, ou não é relevante saber, a causa de «ele ter estado inconsciente». Por outro lado, ao usarmos o verbo «ficar», dá-nos a sensação de que houve algum factor externo que provocou o «ele ter estado inconsciente».

Por último, é verdade que o verbo espanhol quedar(se) pode ser traduzido na maioria dos casos pelo verbo português ficar, e que se assemelha ao mesmo quanto ao uso. Mas nem sempre se pode traduzir quedar(se) por ficar nem ficar por quedar(se). Por exemplo, «a minha casa fica nesta rua» traduz-se  por «mi casa está en esta calle». Mas achamos que não devemos desenvolver esta questão, pois só vai complicar o raciocínio feito até aqui. A língua espanhola tem as suas complexidades, que não se deverão confundir com as complexidades do português, a não ser a título comparativo, o que implicaria um trabalho de fundo que não nos compete aqui.

Para um maior aprofundamento da questão aspectual dos verbos estar, ficar e ser, aconselhamos a pesquisa por esses mesmos itens no Ciberdúvidas, pois é um dos temas muito trabalhados pelos vários consultores.

Sempre ao seu dispor.

1 A construção ficar/estar + gerúndio é mais usada no Brasil e nos países africanos de expressão portuguesa. No que diz respeito ao português europeu, essa construção é dialectal, reservando-se, principalmente, ao Sul e às ilhas. A construção equivalente preferida é ficar/estar a + infinitivo.

Ana Carina Prokopyshyn
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos); Aspecto (verbos)