DÚVIDAS

Porquê o plural decibéis
No programa Cuidado com a Língua! [sobre a linguagem nos tribunais] da RTP, um actor referiu várias vezes a palavra "decibéis". Sempre pensei que o plural da unidade decibel (unidade de medida em na acústica, electrónica, etc.) era "decibels" e referi o caso à produção do programa. Amavelmente, alertaram-me para duas respostas [ver Textos Relacionados] que o Ciberdúvidas deu sobre este assunto. Como essas respostas me suscitam sérias e legítimas dúvidas, aqui deixo algumas considerações sobre o assunto. 1) Não sou perito em língua portuguesa, mas sou utilizador da unidade "decibel" por profissão. Trabalhei na área do ruído há alguns anos e, embora esteja afastado dessa matéria neste momento, como sou músico, o decibel continua a cruzar-se com o meu quotidiano profissional. Sempre ouvi dizer que as unidades não têm género, nem plural. Não se diz "uma" grama. Nem se devia dizer, de facto, em rigor, "dez gramas". A unidade é o grama (g). E o grama é uma unidade, não é um adjectivo! Mas, enfim, condescendo que soa um bocado esquisito dizer que uma coisa pesa dez grama... Quanto aos "decibéis", aí sim, a situação torna-se, na minha opinião, totalmente caricata. Deixem-me usar aqui alguma teoria... A unidade de que estamos a falar aqui é o bel. O bel é o logaritmo de uma razão entre os valores de duas variáveis. Na prática, o valor do bel é quase sempre um número enorme, cuja utilização não dá grande jeito. Daí dividir-se esse valor por dez e daí o decibel, unidade que é usada na prática corrente. A unidade é portanto o _bel_ (B). A título meramente exemplificativo, se não existisse esta convenção que é o decibel, teríamos de escrever do seguinte modo o Regulamento Geral do Ruído, no art. 4, n.3a: «As zonas sensíveis não podem ficar expostas a um nível sonoro contínuo equivalente, ponderado A, LAeq, do ruído ambiente exterior, superior a 550 B(A) no período diurno e 450 B(A) no período nocturno», em vez do que está escrito agora: «55 dB(A)» e «45 dB(A)». Pela lógica das respostas que o Ciberdúvidas deu a estas perguntas, ao ler aqueles valores devíamos então dizer dizer "quinhentos e cinquenta béis" e "quatrocentos e cinquenta béis", respectivamente. Penso que isto seria totalmente absurdo... Nem sequer coincide com a forma correcta de referir o plural de outras palavras semelhantes como mel ou gel (por acaso há alguns anos coloquei essa dúvida ao Ciberdúvidas) que é geles e meles... Ao menos então "decibeles". Levando esta lógica por aí fora, a unidade de pressão pascal (Pa) deveria ler-se no plural "pascáis", a unidade de força newton ler-se-ia "newtónes" e a unidade de indutância, o henry (H) teria talvez de ler-se "henries", assim em plural anglófono. Nada disto faz obviamente qualquer sentido. O que nos leva à questão do decibel cujo plural deveria então ser, na minha opinião e pelas razões referidas, "decibels". Se, como diz o Ciberdúvidas, «é sempre conveniente que se sigam as recomendações internacionais, pois estamos inseridos num espaço amplo de nações, e a univocidade facilita a comunicação entre os seus membros», devíamos então abolir esta prática dos "decibéis", que parece só existir neste Portugal avesso ao rigor científico e a esta confusão sobre o que é uma unidade de medida. 2) Apesar deste horror ao rigor científico, a invenção desta palavra "decibéis" usada como equivalente a "ruído" demonstra contudo uma preocupação pelo ambiente sonoro que me parece interessante. Ao inventar a palavra "decibéis", denotando "barulho a mais" ou a velha "chinfrineira", os portugueses demonstraram sensibilidade e capacidade de invenção. Admito, pois, sem grande problema o uso corrente da palavra "decibéis" como sinónimo de barulho ou ruído em excesso. Já quanto a aceitar que se trate de uma forma legítima de referir o plural da unidade "decibel", aí tenho as minhas dúvidas. Sem ciber!
Complemento indireto e complemento oblíquo
Peço a vossa ajuda no esclarecimento da seguinte questão. Surge, numa nova gramática, a seguinte frase: «O João assistiu ao espetáculo.» A expressão «ao espetáculo» aparece como sendo complemento indireto, contudo parece-me ser um complemento oblíquo (CO). Vejamos: Para ser CO, tem sempre de ser (1) GPrep ou GAdv; (2) sendo GPrep, pode ser introduzido por qualquer preposição; (3) não pode ser substituído pelo pronome pessoal lhe; (4) aparece na resposta às perguntas: O que aconteceu…? O que se passa com…? O que fez…? Ora, voltando à parte da frase em questão: 1) É um GPrep. 2) É introduzida por uma preposição. 3) Não pode ser substituída pelo pronome pessoal lhe. 4) Aparece na resposta à pergunta: O que fez o João? Assistiu ao espetáculo. Admitamos a hipótese defendida na tal gramática. Para ser complemento indireto: 1) É sempre um GPrep selecionado pelo verbo (confirma-se). 2) É sempre introduzido pela preposição a (confirma-se). 3) Pode ser substituído pelo pronome pessoal lhe (não me parece). 4) Responde à pergunta: «A quem?» (não me parece). Se o meu raciocínio está correto, estamos perante um CO. Admito, no entanto, que esteja errado.
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