Uma enumeração sem função sintática
Gostaria de saber a função sintática da expressão «sabedoria, à-vontade na discussão dos grandes temas», na frase «Os benefícios são inegáveis: sabedoria, à-vontade na discussão dos grandes temas».
Muito obrigada.
O nome ilimitude
Gostaria de saber se o emprego da palavra "ilimitude" é correcto, em comparação com ilimitação ou ilimitabilidade.
Ou seja, procuro o termo que significa «qualidade ou estado do ilimitado» – o que me conduz para "ilimitude" Porém, não encontro no dicionário este termo, embora o encontre em alguns trabalhos de filosofia.
Preferia não usar o termo ilimitação, pois induz o significado de «acção ou efeito de não ter limite» – quando o que procuro é «qualidade ou estado» Ilimitabilidade poderá ser uma alternativa, que, adicionalmente, encontro no dicionário.
Contudo, por simples questão de gosto, tendo para "ilimitude". Não estou certo de que esta palavra exista ou que esteja correcta.
Muito obrigado.
N. E. – O consulente segue o Acordo Ortográfico de 1945.
A pronúncia de superfície
Sou francesa e ando a estudar português.
Não sei bem como pronunciar a terminação "ie" em palavras como superfície, calvície, cárie, lingerie.
É a mesma pronúncia que a terminação "i" nas palavras aqui, javali, táxi, álibi?
Devemos ouvir um pouco a letra e? Ou a pronúncia do i em ie é mais longa por causa do e final?
Ou a pronúncia do i e do e em ie são diferentes se o i for tónico ou átono?
Muito obrigada pela sua resposta e disponibilidade.
O género da sigla BADESC
Em 1976 nascia o Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina S/A – BADESC. Nascia, portanto, «o BADESC» (masculino). Porém, logo na sua juventude, a sua razão social foi alterada para: Agência de Fomento do Estado de Santa Catarina S/A – BADESC.
A pergunta é: hoje, quando me refiro ao termo BADESC isoladamente, devo continuar com o masculino, ou troco para o feminino?
«O BADESC» ou «a BADESC»?
Sabido que quando me refiro à nova razão social deve ser «a Agência de Fomento...»
Muito obrigado. Saúde e Paz !
O uso adverbial de pouco: «depressa e bem há pouco quem»
No provérbio «Depressa e bem há pouco quem», a palavra pouco é advérbio de quantidade, modificando o verbo há?
Ou é pronome indefinido, referindo-se a poucos, interpretando-se como «Depressa e bem há poucos que o fazem», por exemplo?
Obrigada.
Deíctico pessoal e expressões sem valor deíctico
Na frase «Todos os anos regresso a Os Maias», podemos que considerar que existem os três deiticos (pessoal, temporal e espacial)?
Obrigada!
O verbo acertar, novamente
Li com atenção a dúvida de um consulente e a respetiva resposta do Ciberdúvidas sobre a regência do verbo acertar, quando este é utilizado no sentido de «atingir».
Ora, a verdade é que fiquei pouco esclarecido.
Vejamos, o consulente dá um exemplo de Camilo:
«O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.»
Daqui podemos inferir a seguinte estrutura da frase com o verbo acertar: «A bala acertou-lhe.» O constituinte «a bala» seria sujeito e o constituinte «lhe» provavelmente complemento oblíquo («a bala acertou no João»), pois há casos em que o pronome lhe não exerce a função de complemento indireto (como em «mexeu-lhe»).
Mas na resposta é dado um exemplo em que se inverte a estrutura do verbo acertar. Diz o Ciberdúvidas: «O lutador acertou um soco no peito do rival.»
Aqui assume-se «um soco» como complemento direto. Esta construção causa-me alguma estranheza. Se fosse com o verbo desferir, não se colocaria a dúvida: «O lutador desferiu um soco no peito do adversário.»
Não me parece que, no caso do verbo acertar, «um soco» deva estar na posição de complemento direto, algo que se pode atestar fazendo a transposição da frase ativa para a forma passiva: «Um soco foi acertado pelo lutador (??)/ Um soco foi desferido pelo lutador.»
O segundo caso é perfeitamente gramatical, o primeiro caso é no mínimo estranho.
Daí que me pareça mais gramatical uma construção do tipo: «O soco [desferido pelo lutador] acertou no peito do rival.» (A bala acertou-lhe/ o soco acertou-lhe)
Não me parece também fiável comparar a regência do verbo acertar com a regência do verbo atingir. Parece-me claro que o verbo atingir seleciona um complemento direto (o alvo) enquanto o verbo acertar, neste sentido de atingir, relaciona-se sintaticamente de forma diferente com o alvo (complemento oblíquo).
Claro que utilizado noutro sentido o verbo acertar pode selecionar complemento direto («acertar as horas/o relógio»).
Assim, vejo pelo menos três possibilidades para a regência do verbo acertar:
1) O lutador acertou com um soco no peito do rival.
Nesta hipótese o verbo acertar seleciona um sujeito (o lutador - aquele que desencadeia a ação), um meio/projétil (seta/soco/bala/pedra/bola – neste caso «com um soco», a minha dúvida aqui é se seria complemento oblíquo ou modificador do grupo verbal) e um alvo («no peito do rival» – complemento oblíquo substituível por lhe).
2) A bala acertou-lhe no peito.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo acertar é o próprio projétil/meio (bala/bola/soco), sendo este lhe um dativo de posse (acertou no peito do João) e é selecionado igualmente um alvo («o peito») como complemento oblíquo.
3) A bala acertou-lhe.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo é igualmente o projétil/meio, sendo o alvo o complemento oblíquo (acertou no João).
Resumindo, o que me causa estranheza é a gramaticalidade da frase «O lutador acertou um soco no peito do rival» ou «ele acertou um seta no alvo» ou «o jogador acertou a bola na trave». E o principal motivo de estranheza é a questionável gramaticalidade da voz passiva [«Uma seta foi acertada no alvo» (???)]. Talvez haja outros casos de verbos transitivos diretos em que ocorra a mesma estranheza na voz passiva, mas penso que sejam raros. [Por exemplo «O João pregou um susto ao Rui»/ «Um susto foi pregado pelo João ao Rui(??)»; «Ele apanhou uma bebedeira»/«Uma bebedeira foi apanhada por ele»(???)]
Mais uma vez parabéns pelo vosso site e pelo serviço público que disponibilizam.
Modificador de frase: «segundo o encenador»
No segmento frásico «Uma versão que, segundo o encenador, não contém todo o original do autor romântico», a expressão «segundo o encenador» desempenha a função sintática de modificador do grupo verbal?
A expressão está inserida dentro de um modificador restritivo, mas é "secundarizado" pelas vírgulas, o que lhe pode atribuir uma função diferente.
Obrigada pela atenção.
Passiva sintética em locuções verbais com preposição intermédia
É possível a transposição da voz passiva analítica para sintética em locuções verbais com preposição intermediária?
Isso pode ser feito em locuções verbais sem preposição intermedária, contanto que o verbo + se não forme um outro, em que essa partícula seja integrante dele; consequentemente, é possível rescreever «Os deveres devem ser feitos» como «Os deveres devem fazer-se», e então como «Os deveres devem-se fazer», mas não «Eles devem ser amados» como «Eles devem amar-se», uma vez que o sentido se altera.
Logo, minha dúvida é se existe essa possibilidade para locuções verbais como «ter de ser feito» e «gostar de ser bonificado», exemplificadas em «Os deveres têm de ser feitos até amanhã» e «Os alunos gostam de ser bonificados», mesmo que sem merecimento; ou seja, é possível reescrever a primeira oração como «Os deveres têm de se fazer até amanhã» (ou «Os deveres têm de se fazerem até amanhã»)? e a segunda como «Os alunos gostam de se bonificar, mesmo que sem merecimento» (ou «Os alunos gostam de se bonificarem, mesmo que sem merecimento»)?
Agradeço a atenção.
Ainda os títulos de obras em textos manuscritos
No sítio do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, na resposta à questão “Títulos de obras ou de textos em manuscritos” [consultado em 16-12-2025], a autora Carla Marques respondeu o seguinte em 15 de dezembro de 2025: «Antes de mais, é importante que se diga que não existe uniformidade quanto aos processos de destacar títulos de obras ou partes delas. Diferentes quadros podem propor diferentes soluções estilísticas.»
Ora, julgo que pode contribuir para completar a resposta e alargar o campo de aplicação saber que existe uma Norma Portuguesa que estipula «diretrizes para a redação de referências bibliográficas e citações de recursos de informação».
Trata-se da NP ISO 690:2024 «Informação e documentação – Diretrizes para a redação de referências bibliográficas e citações de recursos de informação», publicada pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ), a 16 de setembro de 2024.
A NP ISO 690:2024 descreve um conjunto de princípios e diretrizes práticas para a criação de referências e os requisitos para a citação de recursos de informação. Fornece, também, as indicações para a elaboração de citações e referências bibliográficas, estabelece a ordem dos elementos na elaboração dessas referências, bem como as regras para a transcrição e apresentação da informação proveniente de diferentes fontes de informação.
Ora, sendo a consulente aluna do 12.º ano e referindo-se à redação de textos em contexto académico, entendo que deveria ser do conhecimento dos alunos do ensino secundário, e até do 3.º ciclo do ensino básico, a existência desta Norma, bem como a sua aplicação.
No ensino superior os alunos farão uso desta Norma ou de outras Normas Internacionais (APA, Chicago, Harvard, Vancouver e outras), pelo que convém estarem familiarizados, desde logo com a Norma Portuguesa. Aliás esta responde concretamente às questões e dúvidas da consulente. Espero que o contributo seja proveitoso.
