DÚVIDAS

Um mas de Fernando Pessoa
Gostaria de esclarecer uma dúvida sintática a partir de uma frase escrita por Fernando Pessoa: «Sim, não há desolação, se é profunda deveras, desde que não seja puro sentimento, mas nela participe a inteligência, para que não haja o remédio irónico de a dizer.» O trecho que mais me intriga é: «...mas nela participe a inteligência...» Minha dúvida é quanto à natureza sintática e estilística dessa construção. Em português corrente, eu esperaria algo como: «...desde que nela participe a inteligência» ou «...a não ser que nela participe a inteligência», ou mesmo «...mas somente se nela participar a inteligência». A forma usada por Pessoa – «mas nela participe» – parece deslocar-se do uso adversativo comum do mas e se aproximar de uma construção concessiva ou condicional elíptica, talvez por razões estilísticas. Essa forma poderia ser considerada um galicismo sintático? Ou haveria influência do inglês, língua que Pessoa dominava e na qual também escrevia? Em inglês, construções como «There is no desolation, but that in it takes part the intelligence» seriam estilisticamente aceitáveis em prosa poética antiga, o que me faz suspeitar de possível interferência estrutural. Gostaria de saber como se classifica esse uso do mas na gramática do português e se há paralelos em nossa tradição sintática ou se trata mesmo de uma licença poética. Agradeço desde já pela atenção e pelos esclarecimentos.
Se e infinitivo (norma do Brasil)
Lendo uma tradução feita por Brenno Silveira de um dos contos de Edgar Allan Poe, me deparei com a seguinte construção: «possuir-se boa memória e proceder-se de acordo com as regras do jogo são coisas que constituem etc.» Estaria correto o emprego do pronome se? De acordo com Napoleão Mendes de Almeida não se deve usar se quando o sujeito é um infinitivo. Ele cita na sua gramática: «"é proveitoso ler-se esse livro” o correto é "é proveitoso ler esse livro".» No trecho que me causou dúvida não seria mais correto dizer «possuir boa memória e proceder de acordo…», já que é um sujeito infinitivo? Obrigado.
A história de arrumar e arranjar
Em resposta [de 20/03/2026] afirmou[-se] que o verbo arrumar, com o sentido de «preparar, vestir ou pôr em ordem» [se usa no Brasil e] que os termos mais comuns, em português europeu, são arranjar-se ou preparar-se. [No Brasil] seja informal, seja formalmente, empregaríamos arrumar, e nunca arranjar, que se usa noutras acepções. Diga-se, a propósito, que arrumar, com o sentido de «ordenar ou dispor», já aparecia nos dicionários de Cardoso (século XVI) e de Bento Pereira (século XVII). Em Bluteau (primeiro quartel do século XVIII), dá-se exemplo muito semelhante ao do consulente, «arrumar a roupa (Lintea componere)». Moraes (último quartel do século XVIII) traz outro quase idêntico: «arrumar o fato». Já arranjar não se registra em nenhum dos dois primeiros e surge, em Bluteau, apenas no suplemento de 1727, mas como «termo de tanoaria», e não no sentido geral em que viria a ser sinônimo de arrumar. É também como termo de tanoaria que aparece na edição de 1793 do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Portanto, arrumar é termo mais antigo que arranjar, pelo menos na acepção de que estamos tratando, e arranjar é que parece ter-se instalado, no português europeu, a partir de uma extensão informal de um emprego originalmente restrito ao ofício dos tanoeiros.
Carioca, fluminense, "carioquês"
Ouvi falar que estão usando o termo carioca indistintamente para a cidade do Rio de Janeiro e o estado do Rio de Janeiro por causa da influência e da relevância do Fluminense Football Club, time de futebol brasileiro. Por sinal, há um boato de que o Campeonato Carioca de Futebol não é chamado de Campeonato Fluminense de Futebol para ninguém pensar que seja um torneio focado na equipe de futebol brasileira em questão! O que me lembra que o regionalismo do estado é "carioquês", não "fluminensês", que seria confundido com o plural de fluminense sem o acento. Mas,enfim, dizem por aí que os próprios "fluminenses" já estão reivindicando atual e oficialmente o direito de serem todos chamados de cariocas. Daí, como saberemos se cariocas será a utilização do municipal ou do estadual como gentílico? O mesmo já ocorre com nova-iorquino(s) de Nova Iorque dos Estados Unidos, e a cidade de Nova Iorque nem é a capital do estado de Nova Iorque! Estão ligados? O que vocês mesmos entendem do assunto todo em pauta no fim das contas?  Obrigado.
A expressão «à memória»
Sei que o tema já foi aqui trazido, mas sem contextualização. Tenho, infelizmente, passado algum tempo num determinado cemitério e tenho ficado intrigada com o facto de as lápides das campas e dos ossários dizerem todas «À memória de». Contudo, nas placas colocadas nos ossários – em particular, mas não só –, existe a nítida intenção de recordar alguém e não, propriamente, a de homenagear ou dedicar o espaço / a placa a alguém. Assim, no meu entender, a inscrição mais correta deveria ser «Em memória de» fulano tal, em vez de «À memória de...», mas não tenho encontrado nenhuma que corrobore o meu ponto de vista. Será que estou enganada?
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa