Complemento do adjetivo e pronome lhe
Gostaria de saber se de facto estou a analisar de forma correta a seguinte frase:
«Este encontro entre o desejo de tornar Camões acessível a todos e a realidade de um autor reverenciado, mas pouco lido, tem sido um desafio.»
Sujeito: «Este encontro entre o desejo de tornar Camões acessível a todos e a realidade de um autor reverenciado, mas pouco lido.»
Predicado: «tem sido um desafio»
Predicativo do sujeito: «um desafio»
Agora, quanto ao sujeito, vejo um grupo nominal principal («Este encontro») e um complemento do nome encontro: «entre o desejo de tornar Camões acessível a todos e a realidade de um autor reverenciado, mas pouco lido»
Continuando a análise em caixinhas dentro de caixinhas, este complemento do nome é constituído por dois grupos nominais, sendo o primeiro «o desejo de tornar Camões acessível a todos», e o segundo «e a realidade de um autor reverenciado, mas pouco lido».
Deixarei para depois a análise deste último complemento que integra uma oração coordenada adversativa.
Para já interessa-me esclarecer o constituinte «entre o desejo de tornar Camões acessível a todos». É composto por um grupo nominal «o desejo» e por sua vez por outro complemento do nome «de tornar Camões acessível a todos» assegurado por uma oração subordinada completiva.
Gostaria de proceder à análise sintática independente desta oração completiva: «Camões» seria complemento direto do verbo tornar;«acessível a todos» seria predicativo do complemento direto «a todos», complemento do adjetivo acessível.
A minha dúvida é esta: é defensável a ideia de que «a todos» seja complemento indireto?. Exemplo: «Eu tornei Camões acessível a todos»/ «Eu tornei-lhes Camões acessível» (parece-me pouco gramatical).
Obrigado e bom trabalho.
Valor concessivo de oração introduzida por a
Por gentileza, seria correto dizer que o valor semântico estabelecido pela preposição a no verso abaixo de Santa Rita Durão é de concessão, sendo parafraseável por «apesar de»?
«Os perigos, os casos singulares,/ Que por mais de mil léguas toleramos,/ Não contara, depois que no mar erro,/ A ter o peito de aço, e a voz de ferro.» (Caramuru, canto VI, estrofe XXVI)
A locução adverbial «ainda assim»
«Ainda assim» pode ser considerada locução concessiva?
Obrigada.
O adjetivo lombossagrado
Como se escreve: "lombo sagrado", "lombo-sagrado" ou "lombossagrado"?
A locução «em relação a»
Vi alguma uma resposta do Ciberdúvidas sobre «em relação com» como organizador textual, na qual o consideravam como um galicismo a evitar.
Porém, fiquei com dúvidas no uso da mesma expressão no seguinte enunciado:
«Escolha a opção correta em relação com o texto que vai ouvir.»
Agradeço o esclarecimento. Muito parabéns pelo excelente trabalho!
«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática
Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente.
Ora, os dois versos são:
«Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?»
Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são:
«Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade»
Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v.
Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião».
Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)?
Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa?
Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram.
Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual?
Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião.
Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.
Oração subordinada completiva e também coordenada copulativa assindética
Na frase «Quando se afirma que o mundo está condenado, que não há solução, está a condenar-se o mundo, não se lhe permite solução», como classificamos a oração subordinada que se encontra entre vírgulas («que não há solução»).
Vírgula antes de que consecutivo
Tenho encontrado informação um pouco contraditória em relação a esta questão de virgulação (na construção «tão […] que»).
«Foi um barulho tão forte que tive de tapar os ouvidos.»
ou
«Foi um barulho tão forte, que tive de tapar os ouvidos.»
A vírgula é obrigatória, opcional ou não deverá ter vírgula sequer?
Existem fontes que abordem este assunto em particular?
Muito obrigado por toda a ajuda e por todo o vosso excelente trabalho.
O topónimo Calvos
Tenho uma dúvida de utilização do termo natural e residente, a saber:
1. Qual está mais correto, «natural dos Calvos, ou natural de Calvos»?
2. «Residente nos Calvos», ou «residente em Calvos»?
«Os que» (elipse) e «o que» (locução pronominal)
Depois de ter feito uma pesquisa no vosso site, gostaria de saber se estou a analisar corretamente, em termos oracionais e sintáticos, as seguintes frases complexas com a presença das expressões «o que» e «os que»:
1) «Estava calor, o que me transtornou.»
Oração subordinante: «Estava calor.»
Oração subordinada adjetiva relativa explicativa: «o que me transtornou», constituinte que exerce a função sintática de modificador apositivo da oração matriz.
Quanto à análise sintática da oração subordinada: «o que» é sujeito e «me» é complemento direto.
2) «Façam o que mandei.»
Oração subordinante: «Façam.»
Oração subordinada substantiva relativa sem antecedente: «o que mandei», constituinte que desempenha a função sintática de complemento direto.
Quanto à análise sintática da subordinada: «o que» é complemento direto do verbo mandar.
3) «Resolvam os que estão na página trinta» («Resolvam os [exercícios] que estão na página trinta»).
Oração subordinante: «Resolvam os [exercícios]»
Oração subordinada adjetiva relativa restritiva: «que estão na página trinta», constituinte que exerce a função sintática de modificador restritivo do nome [do nome exercícios].
Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de complemento direto da matriz.
Quanto à análise sintática da subordinada: «que» é sujeito, e «na página trinta», predicativo do sujeito.
4) «Os exercícios para resolver são os que estão na página trinta»
Oração subordinante: «os exercícios são os»
Oração subordinada relativa restritiva: «para resolver», com a função de modificador restritivo do nome (ou será uma completiva com função de complemento do nome?).
Oração subordinada relativa restritiva: «que estão na página trinta», com a função de modificador restritivo do nome.
Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de predicativo do sujeito.
Quanto à análise sintática da última oração subordinada: «que» é sujeito e «na página trinta» predicativo do sujeito
A minha dúvida nas frases 3 e 4 é se o predicativo do sujeito [«os que estão na página 30»] não constituirá como um todo uma oração substantiva relativa, sendo a subordinante apenas até ao verbo ser. Isto gera certa estranheza: se a partícula os fizer parte da subordinante (pois a subordinada restritiva inicia-se apenas com que) soa estranho a subordinante ser «Resolvam os».
Por outro lado, se «os que estão na página trinta» funcionar como substantiva relativa teríamos uma adjetiva restritiva («que estão na página trinta») encaixada na subordinada substantiva relativa, mas apenas com um verbo para as duas subordinadas («estão»), o que também parece estranho.
Peço por isso a vossa ajuda para resolver este dilema, pois sempre tive dificuldades em classificar orações com a presença de «os que» ou de «o que».
Votos de bom trabalho.
