DÚVIDAS

Metáfora: «criar/ganhar cama»
Qual é o significado das expressões «criar cama» e «ganhar cama» usadas em Húmus de Raul Brandão, terceira edição: «As paixões dormem, o riso postiço criou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar à aquiescência e à regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto. ... e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama, a boca por se habituar à mentira...» Agradecia a ajuda
Vírgula e gerúndio
Tenho uma dúvida quanto à pontuação e à relação sintática entre orações na frase «Dou de ombros, meus olhos mal passando da curva do seu nariz.» Gostaria de saber se é gramaticalmente adequado justapor essas duas estruturas apenas por vírgula, ou se elas configuram orações com relativa autonomia sintática, exigindo outra forma de pontuação (como ponto final, ponto e vírgula ou o uso de um conector). Em outras palavras, a segunda construção («meus olhos mal passando…») pode funcionar como uma oração reduzida com valor descritivo ligada à primeira, ou trata-se de uma estrutura independente que não deve ser separada apenas por vírgula? Obrigado.
O apelido e topónimo Mourão
Tenho um comentário e uma dúvida. Em todos os dicionários da língua portuguesa, a palavra mourão não aparece associada a qualquer fortificação medieval. Contudo, na pedra de armas da minha família, a representação de Mourão é associada a uma torre com uma porta central no rés do chão, duas seteiras no andar superior e ameias no terceiro andar. Fiquei estupefacta, quando num estudo observei a porta da cidade de Hastingues, muito semelhante ao símbolo referido. Ora, da tradução de mourão em português para latim e francês, o significado é respetivamente saepes [«vedação, cerca»], e clôture ou la barrière [com o mesmo significado].
Construção consecutiva: «tanto assim que...»
Na frase, do mesmo texto de Saramago, «Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade.», a oração «que decidiu morrer injustamente na flor da idade», para mim, é uma coordenada explicativa (por isso decidiu morrer), mas o facto de começar por «tanto assim», (de tal maneira que) pode ser considerada uma adverbial consecutiva? Neste último caso, qual será a subordinante? Muito obrigada por me tirarem as minhas dúvidas.  
Estilo: a repetição de que
Gostaria de saber como tornar a expressão popular «que o que» mais usual ou formal. Geralmente, no meu ponto de vista, é uma marca de oralidade, como em: «Eu achava que o que ele fazia era errado» ou «Como eu queria que o que eu desejei acontecesse». Durante conversas eu não me sinto incomodado, mas quando preciso escrever isso em uma carta ou documento, acho estranho e informal. Caso existam equivalentes na língua portuguesa ou uma maneira de tornar a frase esteticamente melhor, eu ficaria muito feliz em saber. Grato.
O verbo correr, o infinitivo e o sufixo -inho
Quero parabenizar o site. Recorro a vocês para encontrar uma resposta que não encontrei em nenhum outro lugar na rede. É sobre alguns fenômenos linguísticos que tenho observado e para os quais não encontrei definição ou nome. São casos em que a regra sintática é quebrada com um propósito. Não são meramente erros. Na frase «Ele correu pegar a bola», o verbo correr assume uma transitividade que não lhe é própria. Um fenômeno parecido ocorre com «Vá ao quarto correndinho buscar meu telefone», em que o verbo no gerúndio recebe um diminutivo. Claro que as duas frases quebram normas gramaticais, mas não são meros erros, elas têm um propósito, atribuem uma expressividade à construção. Gostaria de saber se há figuras de linguagem em que esses dois fenômenos possam ser enquadrados. Inclusive, gostaria de saber se há mais exemplos desse mesmo fenômeno. Obrigado.
«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática
Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente. Ora, os dois versos são: «Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?» Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são: «Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade» Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v. Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião». Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)? Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa? Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram. Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual? Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião. Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa