A história da expressão de realce é que (II)
Para a pergunta «é que», deparei com a seguinte resposta do Ciberdúvidas:
«Rodrigo de Sá Nogueira, no seu Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (Livraria Clássica Editora, Portugal), explica esse é que (ou foi que) por imitação do francês "c'est que…". E não lhe via, já nesse tempo, qualquer deselegância gramatical . Antes pelo contrário: "Trata-se de uma expressão radicada, consagrada pelo uso, e, diga-se de passagem, de muita expressividade." À luz da gramática portuguesa, R. Sá Nogueira justifica este tipo de construção como uma frase elíptica, que dá força e realce a uma determinada ideia ou informação. No exemplo apontado, a frase seria assim: "A escola recuou na sua proposta. Porque (é que) faltam os fundos necessários." E remete-nos para o que escreveu sobre o mesmo assunto o insuspeito Vasco Botelho de Amaral. Vem no Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Editorial Domingos Barreira, Porto, esgotadíssimo) e é a defesa mais acalorada que conheço da "espontaneidade e relevo expressivo" da partícula é que – um recurso estilístico comum, de resto, em clássicos como Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, ou Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro. A transposição da oralidade – propositada, por exemplo, no jornalismo radiofónico e de TV – para uma linguagem escorreita é que, algumas vezes, deixa muito a desejar…»
A minha dúvida recai sobre a explicação que dá para é que Epiphânio Dias na sua Syntaxe Histórica Portuguesa. Com base nela, é que resultaria da perda de concordância do verbo seguido do antecedente demonstrativo o acompanhado de oração relativa introduzida pela conjunção que: «Eu sou o que sei.», «Eu é que sei.»
Quem estaria com a razão, Epiphânio Dias ou Sá Nogueira?
Cumprimentos
Espártaco e ‘Spartacus’
Fizemos um documentário em que o tema tratado é o escravo Espártaco encarado do ponto de vista histórico. A tradutora usou sempre o nome em português (“Espártaco”) quer nas legendas quer no texto de sonorização. No entanto, há 30 anos houve um filme que celebrizou esta personagem e cujo título atribuído pela Direcção-Geral de Espectáculos manteve o nome em latim ‘Spartacus’ e, como tal, não pode ser alterado. No entanto, hoje em dia, o nome aparece já escrito em português quer em livros de História, romances, etc. A minha pergunta é: A tradução para ‘Espártaco’ está incorrecta apenas porque o nome se popularizou na sua versão latina? Não devemos acompanhar a evolução da Língua Portuguesa nos nossos ecrãs e apresentar a versão portuguesa deste nome?
Complexo de Édipo e complexo de Electra
A propósito da resposta dada a esta questão, verifiquei que ali se referia ser o complexo de Édipo a atracção das crianças pelo progenitor do sexo oposto. Na verdade, Édipo tinha essa atracção pela mãe. Mas no caso da atracção da filha pelo pai designar-se-á da mesma forma?
Sonhar com fazer / sonhar fazer
Gostaria de saber se se pode dizer: sonho com fazer uma viagem ou sonho fazer uma viagem, sem a preposição com.
Já agora gostaria de receber mais informações sobre os erros mais comuns que se dão ao empregar verbos com preposições.
Muito obrigada.
«O João disse onde estava escondido»
– frase interrogativa indireta
– frase interrogativa indireta
Na frase «O João disse onde estava escondido», a oração «onde estava escondido» pode classificar-se como substantiva relativa, mesmo tendo a função de completar a frase neste contexto?
Obrigada.
Ainda a forma "cossado"
Eu penso que "cossado" num artigo anterior está no sentido de «acossado». Assim como "cossa" existe em simultaneidade com acossa, "cossado" existe em simultaneidade com acossado.Aliás, o significado de "acossado" se apropria muito melhor ao contexto do trecho citado.Estarei certo?
O adjectivo relativo a Matusalém
Existe um adjectivo da família de Matusalém? Matusalémico? Matusalénico? Obrigada.
Sobre a expressão «grande soda»
Gostaria de saber a origem do termo «grande soda», quando queremos dizer que alguém é chato/melga.
Mais @
Não se trata de perguntar mas de complementar as respostas anteriores relativas ao símbolo @.
Encontrei por casualidade esta explicação: em 1971, nos primórdios do correio electrónico, um certo engenheiro Ray Tomlinson utilizou casualmente aquele símbolo numa experiência que preparava para enviar mensagens via rede digital entre dois computadores da empresa onde trabalhava, conforme já foi aqui escrito, para separar o nome do utilizador da caixa de correio respectiva. A partir daí vulgarizou-se a sua utilização para este mesmo fim.
Mas até essa primeira utilização a história resumida do @ parece ser mais ou menos esta:
O símbolo surge na idade moderna associado a investigações relacionadas com documentos datados de Maio de 1536 e pertencentes a um mercador florentino: um pequeno manuscrito com uma cauda enrolada que parecia corresponder ao valor de uma ânfora de vinho e, mais tarde, a uma medida de líquido, que com o desenvolvimento do comércio se estendeu por toda a Europa e regiões do oriente, sendo utilizada correntemente nos registos contabilísticos e em toda a documentação comercial, para fazer corresponder um valor com uma determinada quantidade: por exemplo 15 Kgs@200$00 o quilo.
Certamente que em Portugal muitas pessoas se recordarão de se utilizarem impressos de facturas com a indicação do símbolo @ para este mesmo fim.
Quando as máquinas de dactilografar foram inventadas, lá estava o símbolo nos teclados do mundo ocidental, para ser incluído em facturas e registos comerciais. E sobreviveu com essa finalidade até ao surto das máquinas eléctricas com capacidade para gerar impressos onde colunas, pré-formatações e outras novidades vieram tornar a sua inclusão nos teclados dispensável.
Efectivamente, quando surgiu o teclado de computadores com caracteres ASCII em 1963, o símbolo foi incluído sem qualquer objectivo determinado e utilizado por mero acaso pelo engenheiro Ray Tomlinson em 1971 nas suas experiências que vieram a ter os resultados hoje conhecidos. O símbolo terá sido recuperado por R. Tomlinson justamente por não existir já grande risco de produzir consequências indesejáveis, se inserido num endereço de correio electrónico.
Por outro lado, em inglês, a língua de R. Tomlinson, @ lê-se "ét" ou "at" e tem duas aplicações diferentes: "em" para local ou também "a" no sentido em que os antigos utilizavam o @ (medida de unidade).
Em português, na idade da internet, prevaleceu esta última tradução já um pouco obsoleta. Talvez por isso em vez de arroba – que parece estranhíssimo – se devesse ler "em", correspondendo à tradução do "at" inglês com esse sentido.
Só para completar, uma curiosidade: embora esta explicação tenha sido encontrada num texto de uma publicação canadiana, através de busca que efectuei na internet, em dezenas de outros locais encontrei variadíssimas explicações muito menos verosímeis e quase todas muito mais nacionalistas do que esta...
«O segundo rei de Portugal, D. Sancho I», adjetivos numerais
Na frase «O segundo rei de Portugal foi D. Sancho I [primeiro]», segundo é um adjetivo numeral. E em «D. Sancho I [primeiro]»? Neste caso, primeiro é qualificativo, ou numeral?
