DÚVIDAS

«Continuação de...»
Cada vez mais frequentemente ouço pessoas desejarem umas às outras, à despedida: "Continuação" ou mesmo "Boa continuação". Entendo que se trata de abreviar a formulação de um desejo de continuação de bom dia, de bom fim-de-semana, etc., mas será correcto dizer-se assim? Parece-me não ter sentido! Aproveito para agradecer, mais uma vez, o facto de existirem e de trabalharem em prol da língua portuguesa.
Tem-lo e tem-no
Agradeço a resposta à questão que coloquei em relação à expressão "i-las". No texto tenho uma gralha uma vez que escrevi "dificuldades inicias" em vez de "dificuldades iniciais". Se esta gralha puder ser corrigida agradeço. Já em relação ao acento que coloquei em "í-las", reconheço que foi erro meu e a resposta é esclarecedora. Aproveito para colocar outra questão: «Sabes, há muito que não vejo o António. Tu tem-lo visto?» Para além de querer saber se a formulação está correcta, a minha dúvida encontra-se na formação de "tem-lo". Resulta de "tens"+"o" o que faria cair o "s" de "tens" e o "o" passaria a "lo", mas se assim fosse, em rigor teria que escrever "ten-lo" visto. Como é que o "n" passa a "m"? E há casos em que o "o" passe a "no" em vez de "lo" ? "Tem-no" visto faz sentido? Obrigado.
Antítese vs. paradoxo
Após ter lido várias definições de antítese e paradoxo, inclusivamente as vossas, gostaria que, se possível, me explicassem a razão pela qual se considera que nos versos de Camões «Amor é um fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer» esteja presente a antítese e não o paradoxo, como afirmam diversas análises do poema camoniano. Não existe, então, contradição dentro do próprio elemento, nos versos transcritos?
Deparou-se-me / deparei-me com
Recentemente recebi um puxão de orelhas do Ciberdúvidas. Cometi o sacrilégio de usar o verbo "deparar" de forma incorreta. Eis o "puxão de orelhas": "Obs. – Peço licença para dizer o seguinte. Está errada a frase que lemos no fim da consulta: «(...) deparo-me (...) com variações (...)». "Não somos nós que nos deparamos com as variações. As variações é que se nos deparam a nós. Digamos: deparam-se-me variações, Fulano deparou-se-me, a ele deparou-se a mais bela paisagem, etc. Consulte-se um dicionário." Então consultei o Dicionário Prático de Regência Verbal, de Celso Pedro Luft. Realmente, o professor tem razão no que expôs, mas há também a possibilidade (cf. Luft) que aqui transcrevo: " (...) 3. T(Dp)I: deparar(-se) com alguém ou algo (em certo lugar) ou TD(I): deparar alguém ou algo (em certo lugar); depará-lo (lá, ali, etc.) (OBS.). Encontrar(-se), topar(-se) de repente ou por acaso; avistar-se inesperadamente; defrontar-se: Deparei(-me) com um mendigo (na porta da igreja). Deparei um mendigo (ali). '... a satisfação de quem num país estranho se deparasse com um conhecido' (José Lins do Rego: Lessa). 'Ao dobrar a esquina deparei (com) o velho amigo' (...) "OBS. Sintaxe originária: 1) Agente não humano depara algo ou alguém (a alguém), onde o agente é o acaso, a sorte, etc., Deus ou algum santo. Em seguida, a voz reflexiva ou passiva pronominal correspondente: 2) Algo ou alguém depara-se (a alguém) (em certo lugar). A idéia de 'encontro', mais tarde, causou a semântica/sintaxe derivada: 3) Alguém depara(-se) com algo ou alguém (em certo lugar) ou depara algo ou alguém (em certo lugar)." Essa sintaxe, condenada pelos puristas, é defendida por Heráclito Graça e, ainda, por Antenor Nascentes, que "dá um exemplo machadiano onde a sintaxe originária se cruza com a secundária de com : '...a boa estrela (...) sempre me depara (...) com uma tábua de salvação' (por:..me depara uma tábua...)". Na verdade, ao usar o " deparei-me com" devo tê-lo feito de "ouvido". Depois fiquei pensando: se usarmos o verbo como querem os puristas, o que será da 1ª pessoa do verbo (eu/nós)? O verbo será defectivo? Gostaria que o ilustre professor pudesse fazer o comentário dessas colocações. Mais uma vez, obrigada por manter o Ciberdúvidas em tão alto nível. Aliás, é o único lugar que me presta socorro " lingüístico"!
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