O verbo acertar, novamente
Li com atenção a dúvida de um consulente e a respetiva resposta do Ciberdúvidas sobre a regência do verbo acertar, quando este é utilizado no sentido de «atingir».
Ora, a verdade é que fiquei pouco esclarecido.
Vejamos, o consulente dá um exemplo de Camilo:
«O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.»
Daqui podemos inferir a seguinte estrutura da frase com o verbo acertar: «A bala acertou-lhe.» O constituinte «a bala» seria sujeito e o constituinte «lhe» provavelmente complemento oblíquo («a bala acertou no João»), pois há casos em que o pronome lhe não exerce a função de complemento indireto (como em «mexeu-lhe»).
Mas na resposta é dado um exemplo em que se inverte a estrutura do verbo acertar. Diz o Ciberdúvidas: «O lutador acertou um soco no peito do rival.»
Aqui assume-se «um soco» como complemento direto. Esta construção causa-me alguma estranheza. Se fosse com o verbo desferir, não se colocaria a dúvida: «O lutador desferiu um soco no peito do adversário.»
Não me parece que, no caso do verbo acertar, «um soco» deva estar na posição de complemento direto, algo que se pode atestar fazendo a transposição da frase ativa para a forma passiva: «Um soco foi acertado pelo lutador (??)/ Um soco foi desferido pelo lutador.»
O segundo caso é perfeitamente gramatical, o primeiro caso é no mínimo estranho.
Daí que me pareça mais gramatical uma construção do tipo: «O soco [desferido pelo lutador] acertou no peito do rival.» (A bala acertou-lhe/ o soco acertou-lhe)
Não me parece também fiável comparar a regência do verbo acertar com a regência do verbo atingir. Parece-me claro que o verbo atingir seleciona um complemento direto (o alvo) enquanto o verbo acertar, neste sentido de atingir, relaciona-se sintaticamente de forma diferente com o alvo (complemento oblíquo).
Claro que utilizado noutro sentido o verbo acertar pode selecionar complemento direto («acertar as horas/o relógio»).
Assim, vejo pelo menos três possibilidades para a regência do verbo acertar:
1) O lutador acertou com um soco no peito do rival.
Nesta hipótese o verbo acertar seleciona um sujeito (o lutador - aquele que desencadeia a ação), um meio/projétil (seta/soco/bala/pedra/bola – neste caso «com um soco», a minha dúvida aqui é se seria complemento oblíquo ou modificador do grupo verbal) e um alvo («no peito do rival» – complemento oblíquo substituível por lhe).
2) A bala acertou-lhe no peito.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo acertar é o próprio projétil/meio (bala/bola/soco), sendo este lhe um dativo de posse (acertou no peito do João) e é selecionado igualmente um alvo («o peito») como complemento oblíquo.
3) A bala acertou-lhe.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo é igualmente o projétil/meio, sendo o alvo o complemento oblíquo (acertou no João).
Resumindo, o que me causa estranheza é a gramaticalidade da frase «O lutador acertou um soco no peito do rival» ou «ele acertou um seta no alvo» ou «o jogador acertou a bola na trave». E o principal motivo de estranheza é a questionável gramaticalidade da voz passiva [«Uma seta foi acertada no alvo» (???)]. Talvez haja outros casos de verbos transitivos diretos em que ocorra a mesma estranheza na voz passiva, mas penso que sejam raros. [Por exemplo «O João pregou um susto ao Rui»/ «Um susto foi pregado pelo João ao Rui(??)»; «Ele apanhou uma bebedeira»/«Uma bebedeira foi apanhada por ele»(???)]
Mais uma vez parabéns pelo vosso site e pelo serviço público que disponibilizam.
Já a começar oração
Tenho visto muitas vezes a palavra já usada em início de oração de uma forma que me parece inadequada, mas gostaria de saber se tenho razão nesta interpretação.
Para mim, já em início de oração introduz uma oposição relativamente à oração anterior. Por exemplo, se eu disser «O autor A escreve romances, já o autor B escreve poesia», esta frase é lógica. Mas se eu disser: «O autor português A escreve em inglês, já o autor português B escreve numa língua estrangeira», esta frase não tem sentido (não há nenhuma oposição entre as duas orações).
No entanto, constato que já é muitas vezes usado em início de oração, como nos exemplos dados, apenas para introduzir uma informação nova ou complementar, sem que haja nenhuma oposição entre a primeira e a segunda oração.
É este uso correto?
Conjugação verbal e verbos auxiliares
Vejo sempre em livros o ensino de conjugação dos tempos composto com o auxílio do verbo ter .
Ex.: «Tenho estudado bastante.»
Nunca vi, todavia, exemplos com o verbo vir , apenas na linguagem falada do dia a dia.
Ex.: «Venho estudando bastante nos últimos dias.»
Assim, gostaria de saber se esta última construção é abrangida pela norma culta ou é fruto de coloquialismo.
Desde já agradeço pelo apoio de sempre!
Rima dos tercetos de um soneto
Num soneto de Camões, com o esquema ABBA ABBA, e CDE, CDE, como classifica a rima nos tercetos?
Sempre pensei que seria cruzada, e já vi em manuais apontando para esta, mas agora , também acho interpolada.
Podem ajudar-me?
Obrigada.
Infinitivo pessoal e o pronome o
No que concerne ao infinitivo pessoal (ex.: para eu pô-lo..., para tu pore-lo...), a norma culta preconiza a ênclise como regra ou a colocação é facultativa quando o pronome é o acusativo "o" (e suas variantes lo/no)?
Em construções como «para eu o fazer» ou «para eu fazê-lo», existe alguma preferência entre o português europeu e o brasileiro, ou alguma restrição sintática que torne uma das formas menos recomendável?
Obrigado.
População e multidão (nomes coletivos)
Peço, por favor, que me esclareçam a diferença entre os nomes comuns coletivos "população" e "multidão".
Ambos podem ser considerados nomes comuns coletivos para designar um conjunto de pessoas em contexto escolar?
Obrigada.
Mesmo a introduzir oração de gerúndio
Na frase «Mesmo chovendo, viajamos», a palavra mesmo é conjunção acidental?
Ou qual a classe gramatical da palavra mesmo?
Obrigado
Parassíntese e o verbo aproximar
Sobre a parassíntese, o verbo aproximar poderá ser um caso desse processo de formação?
Obrigado.
Contabilizar e avaliar
Tenho lido contabilizar como sinónimo de avaliar, inclusive no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa.
Está correto ou trata-se apenas de um termo do processo contabilístico?
Obrigado
O complemento do adjetivo merecedor
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida que surgiu a partir de um exercício de um manual adotado no ensino secundário, no âmbito da distinção entre complemento do nome e modificador do nome.
No exercício em questão, verifica-se uma divergência entre as propostas de correção apresentadas no manual digital e no manual em formato físico. No texto:
«Álvaro de Campos assume-se como discípulo de Alberto Caeiro […] Febril e furioso, expressa a sua admiração por todas as coisas contemporâneas, incluindo no seu canto elogioso realidades que poucas vezes haviam merecido registo poético, banais e disfóricas, mas merecedoras de exaltação por integrarem a diversidade do mundo moderno.»
Na solução do manual digital surge destacada apenas a expressão «de exaltação», com a função de complemento do nome.
Já no manual em formato físico aparece destacada a expressão «merecedoras de exaltação», classificada como modificador apositivo do nome.
A dificuldade sentida prende-se com o facto de «merecedoras» funcionar como adjetivo, constituindo o núcleo do grupo adjetival, pelo que a expressão «de exaltação» surge dependente desse adjetivo e não diretamente do nome «realidades». Neste sentido, a classificação de «de exaltação» como complemento do nome acaba por gerar alguma ambiguidade, sobretudo para os alunos que recorrem às soluções do manual como apoio ao estudo.
Confesso que também me suscitou alguma dificuldade a interpretação das soluções, o que reforça a importância de uma orientação clara para os alunos
Assim, gostaria de solicitar a sua ajuda no esclarecimento desta questão e na orientação a dar aos alunos.
Muito obrigada pela sua disponibilidade.
