DÚVIDAS

Não + pronome o: «Não no pode estorvar» (Camões)
Algumas ocorrências que encontrei de pronomes oblíquos átonos arcaicos: «Que estais no céu, santificado... Não no disse eu, menina? Seja o vosso nome…» (Almeida Garrett) «Ele ou é trova, ou latim muito enrevezado, que eu não no entendo.» (Almeida Garrett) «Via estar todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma; / Não no pode estorvar, que destinado / Está doutro Poder que tudo doma.» (Camões) «O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a pátria, não, que está metida…» (Camões) «Ora sabei, padre Fr. João, que eu bem no supunha, bem no esperava; mas parecia-me impossível, sempre me parecia impossível que viesse a acontecer.» (Eça de Queirós) «A culpa de se malograrem estes sublimes intentos quem na tem é a sociedade…» (Camilo Castelo Branco) «Parentes, amigos, nem visitas nenhumas parecia não nas ter.» (Almeida Garrett) Há alguma explicação para o uso da consoante n antes dos oblíquos átonos? Muito obrigado!
Repetição de símbolos de unidades: «+10 °C a 35 °C»
Surgiu-me uma dúvida sobre a necessidade ou, até, obrigatoriedade de repetir o símbolo de graus Celsius numa sequência de valores, como na seguinte frase: «A uma temperatura ambiente de +10 °C a 35 °C, a temperatura interior do aparelho deve situar-se entre +2 °C e +8 °C.» Nas minhas pesquisas, encontrei a supressão da medida apenas em textos jornalísticos que eliminavam, porém, também a referência a «Celsius», como neste exemplo: «Outono começa hoje com temperaturas entre 20 e 27 graus e chuva no Minho» (Diário de Notícias, 23/09/2019). Daí a dúvida que gostava de ver esclarecida: numa frase semelhante à primeira que cito, deve escrever-se «temperatura ambiente de +10 °C a 35 °C» ou também é possível escrever «temperatura ambiente de +10 a 35 °C»? Muito obrigada pelo vosso trabalho incansável, pelo auxílio precioso que prestam a toda a comunidade de falantes da língua portuguesa.   O consulente segue a norma ortográfica de 45.
A pronúncia do ditongo ei (eira, dinheiro, deixei) II
O “caso” em questão data do ano passado, mas parece-me ter grande importância no actual contexto de perversão da língua portuguesa: a escrita com o Acordo Ortográfico de 1990 e a ortoépia com o “lisboetismo” (permitam-me o barbarismo). Um consultante solicitou ao Ciberdúvidas qual a leitura correcta do ditongo /ei/. A resposta de um tal Carlos Rocha (a 14/12/18) é de antologia! Diz o senhor Rocha : “ … feira, maneira e deixei, soam () como "fâirâ", "mânâirâ" e "dâixâi"… ! O senhor Rocha deve considerar que Portugal é o Terreiro do Paço… A pronúncia a que se refere não corresponde à realidade da maior parte das regiões do país. É, sem dúvida, a mais propagada pelos principais meios de comunicação nacionais – rádios e televisões – cujas sedes se situam invariavelmente em Lisboa. O ditongo /ei/, em galaico-português, pronuncia-se como /ei/ : Oliveira (não Olivâirâ"), peixeira (não pâixâirâ")… Talvez o senhor Rocha considere que deve pronunciar-se frio como “friu” e rio como “riu”. A ortoépia das diversas regiões do país merecem respeito, mas a origem da língua portuguesa é nortenha, e por mais capital que seja Lisboa, o sotaque que tanto divulgam não é uma regra para todos. Recorde o senhor Rocha (e também a Ciberdúvidas que o publica), que Portugal não se limita – por enquanto – à área da Grande Lisboa.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa